Você já ouviu falar dos PIIGS?

Trata-se do novo acrônimo, um tanto maldoso, inventado pelo mercado financeiro para designar o grupo formado por Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha, o grupo dos europeus que foram para o atoleiro com a crise internacional.

Esses países enfrentam sérios problemas com a explosão de seus déficits públicos e a dificuldade de financiar a dívida crescente diante da maior desconfiança dos investidores internacionais.

Como fazem parte da zona do euro, não têm como desvalorizar suas moedas, solução geralmente adotada por países com problemas fiscais para estimular suas exportações e brecar as importações, melhorando as contas externas.

Sem muitas saídas do ponto de vista da política monetária, resta apelar para a política fiscal: os governos desses países vão ter de gastar menos, o que deverá agravar ainda mais a recessão econômica em que se encontram e atrasar todo o plano de recuperação da Europa.

O que fica cada vez mais claro é que o mundo comemorou cedo demais o fim da crise. Os governos ainda terão muita dor de cabeça para recolocar a economia nos trilhos.

Os porquinhos da Europa são apenas a bola da vez…


Mais grave do que a crise moral, ética e legal em que se atolou a política no Brasil é o cinismo. Ontem, o presidente do Senado, José Sarney, reabriu oficialmente os trabalhos da casa com a leitura de um discurso que fez em 1995, quando assumiu o cargo pela primeira vez. Nele, Sarney afirma que “transparência, moralidade, eficiência e trabalho” devem pautar o Congresso este ano.

Que ninguém tenha se esquecido, trata-se do mesmo José Sarney que passou o último ano tentando, sem sucesso, defender-se das acusações envolvendo a nomeação de parentes, amigos e correligionários no Senado. Cabeça de uma das mais antigas e retrógradas oligarquias do País, Sarney representa exatamente o oposto dos valores que, segundo suas próprias palavras, devem nortear o homem público.

O discurso político no Brasil esvaziou-se, perdeu qualquer noção de sentido e crédito e adotou um tom meramente protocolar. Foi tão desvinculado da realidade dos bastidores, escancarada pelas câmeras escondidas e grampos telefônicos, que ninguém lhe dá a menor importância.

Nos acostumamos a ouvir que os partidos estão discutindo alianças para disputar as eleições “com base no conteúdo programático”, que o governo está negociando “de forma republicana” a aprovação de um projeto na Congresso ou que o escândalo de corrupção “será investigado e os culpados, punidos exemplarmente”, mas que “ninguém pode ser julgado de forma antecipada”, mesmo que pego com a boca na botija. E simplesmente damos de ombro, porque sabemos que não é assim que a coisa funciona.

É justamente essa apatia que preocupa. Que tipo de democracia esperamos construir se simplesmente não nos importamos?


O telefone toca. São oito horas da manhã da segunda-feira.

O céu está azul, o Sol brilha forte e já esquenta logo cedo.

- Mamãe foi assaltada!

Salta da cama, coloca a calça por cima do pijama, calça os sapatos de ontem, pega as chaves e corre para o carro.

- Chama a polícia.

Chama a polícia, liga para a irmã, fala com a empregada, mas não se sabe muito.

Até a casa de Dona Marileuza não são mais do que quatro quilômetros, talvez pouco mais de 10 minutos, mas o trânsito e os sinais vermelhos fazem pensar que são uma eternidade.

Algumas ultrapassagens arriscadas, olha feio para o carro do lado, canta pneu na saída.

Finalmente, o carro para e ela desce, nervosa.

Encontra a mãe já recuperada.

Alívio, sensação de alarme falso.

Dois polícias haviam acabado de deixá-la.

Foram educados, atenciosos, prestativos, “muito diferentes da fama que carregam”.

Ouviram a história de que fora atacada quando chegava do supermercado e estacionava seu carro na garagem.

Um rapaz magro, moreno, colocara de repente uma faca em seu pescoço.

Queria dinheiro.

Ainda dentro do carro, ela agarrou-lhe a mão. E gritou.

Assustado, o bandido desistiu do assalto e fugiu pela rua afora.

“Sujeito mal encarado”, comentaram duas vizinhas que conversavam alguns metros adiante, quando o viram passar, sem fazer idéia do que sucedera.

Devia se tratar de algum viciado em busca de qualquer troco para comprar crack, bandido barato, ladrão de galinha.

- Profissional não assalta com faca.

No fim, algumas recomendações:

A partir de agora, nada de portas e janelas abertas.

Manda colocar grade em todas as janelas e, talvez, na porta da cozinha, “como já é lá em casa”.

Põe cerca elétrica nesse muro. Talvez o vizinho se interesse em dividir isso. Não dá para facilitar. A vida nos manda avisos…

- Amanhã mesmo vou correr atrás disso.

Ah, e nada de sair novamente sozinha para caminhar de manhã.

No fim, nem vai sair tão caro.


Semana passada foi corrida e não consegui tempo para postar, mas volto hoje com uma recomendação de leitura. No domingo (17), o Financial Times publicou uma matéria bem interessante sobre o chamado Bric – grupo formado por Brasil, Rússia, Índia e China e que, segundo o Goldman Sachs, criador do acrônimo, será a maior força da economia mundial dentro de algumas décadas.

Volto depois para dar uma pinceladas sobre o tema, mas o lide do FT resume muita coisa: “coloque um jaguar, um urso, um tigre e um panda juntos e você poderá ter um bom espetáculo, mas não conseguirá uma vida tranquila.” O link para a matéria está aqui.


“Africano em si tem maldição”. “Todo lugar que tem africano tá f…”. Este é o cônsul do Haiti no Brasil. Sua maldição não é ser africano, haitiano ou macumbeiro. Sua maldição é ser um energúmeno. Se toda os representantes haitianos no exterior forem assim energúmenos, então não tenho qualquer receio em dizer: o Haiti é realmente um país amaldiçoado.

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Por que Deus, se de fato existe, permite tragédias como a do Haiti ou o tsunami asiático, em 2004?

Como pode um Deus amoroso e todo poderoso assistir imóvel a pessoas morrendo de fome na África ou assassinadas num acerto de contas qualquer em alguma favela na periferia de São Paulo?

Onde está Deus nisso tudo?

Talvez seja a hora de os cristãos repensarem sua concepção de Deus, de abandonar a figura do homem com superpoderes, interessado e capaz de manipular todos os pequenos movimentos individuais do Universo como peças de seu imenso quebra-cabeças cósmico.

Haveria um propósito divino por trás de cada folha que cai de uma árvore?

Os cristãos gostam de dizer que sim.

Mas, neste caso, talvez fosse coerente e necessário responsabilizar Deus pelos milhões de judeus mortos nos campos de concentração da Segunda Guerra.

Se não, seria o caso de perguntar: o que afinal Deus está fazendo enquanto assiste ao homem se autodestruir?

Talvez não nos caiba buscar explicações sobrenaturais para substituir as explicações naturais, que já existem, para fenômenos como terremotos e furacões. Ou para fenômenos socioeconômicos que geram miséria e opressão em todo o mundo.

E se o terremoto for apenas o que é: um acontecimento natural num planeta constituído de uma massa incandescente de rocha, coberta por uma fina camada de rocha solidificada, dividida em placas que se movem e se atritam entre si, sem propósito e intenção?

Talvez Deus não fique apenas assistindo tudo do alto de seu trono de majestade, mas esteja junto com o homem em todas as situações, sofrendo com ele, alegrando-se com ele, ensinando e aprendendo com ele a construir a História.

Talvez nós, que vivemos a suplicar e esperar por milagres que removam os obstáculos do caminho, sejamos Seus verdadeiros braços e pernas na Terra.

Talvez a verdadeira espiritualidade não seja aquela que busca explicações metafísicas para o mal, mas a que arregaça as mangas e faz o bem.

E a verdadeira face de Deus não seja aquela que as pessoas buscam nas igrejas, mas a do médico voluntário que deixa seu conforto e arrisca a própria vida para ajudar as pessoas no Haiti.

Talvez Deus seja a essência que há em todas as coisas – na música, na poesia, no amor, na beleza e no furor da natureza, na criança, no que há de puro, belo e humano, no nascer e no morrer, no prazer e no sofrer – à espera de alguns instantes de contemplação para que possa ser captada pelo espírito do homem.

Não tenho resposta para essas perguntas.

A crença em um Deus suficientemente poderoso para criar o Universo contradiz qualquer esforço de compreensão que pretenda encerrá-lo em um sistema hermético de pressupostos e correlações teológicas.

Deus está acima da minha capacidade de entendê-lo, o que me faz concordar com Tom Honey, um reverendo anglicano, quando diz que a mais profunda declaração religiosa de todas, a única coisa realmente precisa que se pode dizer sobre Deus é: “Eu não sei”.


O terceiro Programa Nacional de Direitos Humanos é um arrazoado de diretrizes de governo e projetos que, para virar lei, precisam ser discutidos, votados pelo Congresso e regulamentados.

Como decreto, o PNDH-3 não cria ou destitui nenhum direito ou obrigação, não altera uma única vírgula da Constituição. Mesmo assim, o texto é alvo de uma campanha de proporções terroristas por parte dos setores conservadores e da direita.

Para eles, o Programa é uma séria ameaça à democracia, à propriedade privada e à liberdade de imprensa, o esboço de uma nova constituição lulo-petista de inspiração bolchevique.

Após quase oito anos no poder, os “companheiros”, antes domados pelas circunstâncias, estariam finalmente mostrando sua faceta autoritária. Dilma Rousseff seria a encarregada de implantar o socialismo no Brasil!

Trata-se, é claro, de uma bobagem sem tamanho, especialmente se considerarmos as características da democracia brasileira.

O governo Lula foi tão conservador como poderia ser um governo de coalizão, sustentado pela aliança com as oligarquias políticas mais poderosas e retrógradas.

Na verdade, Lula prova um pouco do seu próprio veneno. Em 2006, venceu a eleição ao reforçar seus laços históricos com a esquerda e estigmatizar o candidato da direita – Geraldo Alckmin representava o “entreguismo” neoliberal de FHC, o conservadorismo tacanho de Pindamonhangaba.

Agora é a vez do contra-ataque, e a direita tenta colar em Dilma Rousseff os medos que recaíam sobre Lula no fim dos anos 80.

Faz parte do jogo político. O que não pode é essa disputa desmoralizar a discussão sobre os direitos humanos – a única coisa que realmente importa aqui.


O terceiro Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3) peca pelo excesso de maneirismos de esquerda e merece alguma revisão, mas é uma desonestidade histórica igualar torturadores do regime militar e guerrilheiros dos movimentos de esquerda, como querem os militares.

Contextualizando: o PNDH-3, entre uma série de outras medidas, cria a comissão da verdade, um grupo com representantes da Casa Civil, das pastas da Justiça, da Defesa e da Secretaria Especial de Direitos Humanos, “para examinar as violações de direitos humanos praticadas no contexto da repressão política”.

O problema está justamente na expressão “repressão política”, que resume as investigações aos torturadores do regime. Os militares querem que a comissão também investigue os crimes contra os direitos humanos praticados pelos movimentos de esquerda.

Para isso, sugerem que sejam apuradas as violações “praticadas no contexto de conflitos políticos e da repressão política”.  Outra possibilidade é que o texto preveja a investigação das violações “praticadas durante o período da ditadura militar”, sem mencionar nenhum dos lados.

Seja qual for a solução semântica, o resultado é desastroso, pois legitima as ações praticadas pela ditadura militar, da supressão de liberdades individuais à perseguição política, das prisões arbitrárias às execuções sumárias.

Não importa que tipos de atrocidade foram praticadas pelos movimentos revolucionários e nem mesmo o fato de que, no poder, provavelmente impusessem uma ditadura de esquerda tão violenta quanto à de direita.

Quem apela a esse argumento faz um julgamento moral dos agredidos e, assim, tenta justificar as agressões de que foram vítimas, mas se esquece que ninguém, ninguém, pode ser condenado sem direito à defesa e a um julgamento justo.

O Estado não tem mandato para torturar e exterminar quem se opõe ao governo, especialmente um governo estabelecido pela força das armas. Simplesmente não dá para ignorar isso.


A declaração de Boris Casoy sobre os garis não foi pública, embora tenha desastradamente vazado para o público. Essa diferença deveria ser levada em conta por quem pede a cabeça do jornalista da Band.

Boris merece ser julgado pelo que fala enquanto jornalista no exercício consciente de sua função, sendo elogiado ou criticado pelas posições que assume enquanto a câmera está ligada. 

Essa condição se desfaz quando ele sai do ar. A partir desse momento, o que pensa e fala sobre garis, motoristas, faxineiras, operadores de telemarketing e blogueiros desocupados não têm qualquer relevância. 

Como quem tem uma enorme responsabilidade nas mãos, Boris Casoy pecou pelo descuido. Mas isso não justifica a cruzada moralista de que está sendo vítima.

Custa crer que aqueles que inundaram a rede com mensagens perplexas e indignadas contra seu suposto preconceito de classe sejam assim tão politicamente corretos, pudicos, respeitosos e solidários em seus momentos privados de descontração.

Se as pessoas de fato respeitassem e defendessem os direitos dos varredores de rua com o mesmo afinco com que avançam sobre o pescoço do jornalista, a profissão de gari não seria, por assim dizer, “a mais baixa da escala de trabalho”.

Mas em geral as pessoas se sentem muito bem consigo mesmas quando se manifestam em defesa dos fracos e oprimidos contra um membro perverso e cruel da “elite dominante”. É uma forma muito popular de expurgar os próprios preconceitos.


O diabo das catástrofes provocadas pelo clima é que elas passam. Logo o verão termina, as chuvas cessam e a vida volta ao normal.

Choradas as mortes e as perdas, as ruas são limpas, pontes e casas são reconstruídas e o assunto sai de pauta. Pelo menos até que a próxima temporada de chuvas traga sua destruição.

Esta é uma história que se conta todos os anos, todos os anos, embora toda a discussão sobre mudanças climáticas lhe empreste um ar de novidade – em São Paulo, o prefeito Gilberto Kassab não demonstra qualquer constrangimento em dizer que as últimas enchentes foram o resultado de “muita chuva”.

O grande desalento é que este é um problema sem solução.

O Brasil precisa reurbanizar suas cidades, o que exige não apenas muito dinheiro, mas um senso de comprometimento com o futuro do qual os políticos no País não passam nem perto. Por aqui, projetos de longo prazo batem de frente com as demandas eleitoreiras.

Dá muito mais voto decretar estado de emergência, sobrevoar as áreas destruídas, apertar a mão de desabrigados e reconstruir tudo do que investir em ações muitas vezes invisíveis (para não mencionar o fato de que, em situações assim, governos podem gastar sem abrir licitação).

Ações preventivas como frear a ocupação – e a destruição – das áreas de manancial ou aumentar o rigor na emissão de licenças ambientais, também são impopulares, além do que ferem interesses econômicos – desde o das grandes usinas ao das pousadinhas em encostas de morro.

Também desconfio que haja um problema de competência. Falta aos governos municipais gente capaz de fazer projetos tecnicamente consistentes e buscar recursos para executá-los.

Mas é, sobretudo, um problema de conscientização mesmo, de gente que acha que o Brasil virou refém de ambientalista.