Embora tenham deixado muita gente empolgada, os ganhos acumulados nas bolsas de valores nos últimos meses são mais um motivo de preocupação do que de comemoração.

Não é preciso ser economista para entender que algo está errado se bancos e especuladores ganham muito dinheiro enquanto empresas quebram e trabalhadores perdem seu emprego. E é exatamente isso que está acontecendo nos Estados Unidos, o epicentro da crise mundial: apesar de dar sinais de recuperação, a maior economia do mundo continua mergulhada na maior recessão desde 1929, o desemprego ultrapassa os 10% e as famílias, inadimplentes, continuam a perder suas casas.

Enquanto isso, Wall Street toca a vida como se não houvesse nada de errado. Os preços de ações e commodities registraram altas expressivas nos últimos meses, e os grandes bancos voltaram a registrar lucros recordes. Mais do que isso: Goldman Sachs, JP Morgan e Morgan Stanley, três gigantes do mercado financeiro que tiveram de ser socorridos pelo governo americano, anunciaram que devem pagar uma quantia recorde, de quase 30 bilhões de dólares, em gratificações para seus executivos – os mesmos que são acusados de arrastar o mundo para a crise com suas apostas arriscadas.

E por que isso acontece? Porque essa foi a solução encontrada pelo governo americano para evitar um estrago ainda maior da economia: o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) zerou a taxa de juros, religou a máquina de imprimir dinheiro e despejou dólares nos bancos. Mas os bancos estão usando esse dinheiro barato para financiar a compra de ativos que perderam valor depois da crise ou aplicar em países com taxas de juros mais altas, como o Brasil.

De um lado, essa política conseguiu evitar que as ações se desintegrassem e o mercado financeiro entrasse em colapso. Do outro, encomendou uma nova crise.

O maior temor é de que o excesso de dinheiro despejado no mercado venha a inflacionar os preços nos próximos anos. Já temendo os efeitos da desvalorização do dólar, grandes investidores passaram a comprar matérias-primas como ouro, petróleo e soja, cujos preços vêm subindo.

Para conter a escalada da inflação, os governos vão ter de elevar juros em algum momento. E quando os custos dos empréstimos subirem, os tomadores vão pensar duas vezes se correm riscos no mercado financeiro ou se deixam seu dinheirinho guardado nos cofres do governo, rendendo um jurinho básico, mas seguro. Nesse momento, pode ser chegar à conclusão de que os mercados estavam inflados artificialmente – ou seja, que as coisas não valiam tanto quanto se pensava. Daí a uma nova crise mundial, precisamos de apenas um espirro.


FHC / ENTREVISTAA jornalista Mônica Bergamo revelou ontem que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso vai finalmente reconhecer o filho que tem com a jornalista da TV Globo Mirian Dutra.

A grande imprensa nunca se interessou em revelar a existência de Tomas Dutra Schmidt, hoje com 18 anos. A exceção foi a revista Caros Amigos, que há anos questiona o porquê da omissão.

Os jornalistas que poderiam ter dado a informação argumentam que o assunto era pessoal e que, como tal, não tinha de ser levado a público.

À primeira vista, parece razoável. Em tese, aspectos pessoais da vida de um homem público só deveriam ser alvo de interesse geral à medida que afetassem sua atuação como homem público.

Assim, um ministro de Estado pode sair com quem quiser, mas tem de dar esclarecimentos se tiver um romance com a titular de uma pasta para quem libere verbas. Do mesmo modo, o presidente da República pode tomar umas doses a mais vez ou outra, desde que não tome decisões sob efeito do álcool ou apareça embriagado em alguma reunião.

Os americanos são muito mais rígidos com relação à vida privada de seus governantes. As escapadas de Bill Clinton com Monica Lewinsky quase lhe renderam a perda do mandato.

Talvez não fizesse muito sentido no Brasil, mas fazia todo sentido em uma sociedade com valores puritanos tão enraizados: afinal, a vida particular não me diz coisas importantes sobre o caráter do meu governante?

Se sim, a mídia tem o dever de fiscalizar tudo, se é casado, solteiro, homossexual, se dá em cima da mulher do outro, se reconhece filhos fora do casamento, se bebe, fuma ou usa drogas ilícitas.

Afinal, eu tenho o direito de não querer um presidente que possa a ser alvo de escândalos sexuais ou preferir um presidente católico a um presidente ateu.

Mesmo por que os marqueteiros geralmente exploram o bom mocismo dos candidatos durante as eleições: “este é fulano de tal, casado há 20 anos, três filhos, bom pai, bom marido”. Se aspectos da vida privada podem ser publicados quando favorecem o político, não deveriam ser também explorados quando o desfavorecem?

Se FHC não assumiu legalmente o filho que sempre reconheceu ser seu, é porque julgou se tratar de um fato moralmente reprovável e com possíveis implicações sobre sua então promissora carreira política. E quem se esconde de tais preconceitos, de alguma maneira os legitima.

De todo modo, reconheço que a publicação ou não da história sobre o filho bastardo do presidente é alvo passível de discussão. Apenas não se discute que a mídia esteve longe de ser tão cuidadosa e condescendente quando os atores e os interesses foram outros.


…enquanto isso, comenta-se na imprensa, Geisy Arruda negocia tirar a roupa para a Playboy.

Nada contra, mas seria de ótimo tom que não o fizesse…


A decisão da Uniban de expulsar Geisy Arruda, a aluna que provocou a fúria dos colegas por ir à aula trajando um microvestido rosa, me remete aos mais absurdos moralismos que já vi e com os quais convivi nos meus tempos de igreja.

Mas me causa, de longe, muito mais estranheza.

Porque é de se supor que nos meios religiosos haja um padrão moral ótimo a ser perseguido pelos crentes e que sua violação, se tolerada, represente algum tipo de ameaça a sua manutenção. 

Mas à universidade não cabe outro papel senão o de combater essa intolerância, de ser um espaço promotor do conhecimento, da convivência e do contraditório. O preconceito de qualquer natureza fere sua razão de existir.

Por isso a reação fundamentalista dos alunos ao vestido curto é tão mais condenável do que o alegado “desrespeito à dignidade acadêmica e à moralidade” em que a Uniban se apoiou para expulsar a vítima e poupar os agressores.

Ao punir Geisy, a Uniban dá um tiro no pé: desperdiça a chance de transformar um episódio amplamente desfavorável para sua imagem em objeto de debate e algum amadurecimento intelectual de seus alunos. Mas aí, nenhuma surpresa: essa nunca foi mesmo a sua vocação.



bloomberg

Upload feito originalmente por Gerson Freitas Jr.

Há coisas que podem acontecer no lado de cima da bola azul, mas jamais no lado de baixo. Feita a constatação, registro com atraso que o prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, foi reeleito na terça-feira para um terceiro mandato seguido. Isso mesmo: terceiro mandato. O bilionário das comunicações conseguiu que os legisladores nova-iorquinos mudassem a lei, que antes previa apenas dois mandatos de quatro anos, para que ele pudesse prolongar sua estadia na City Hall. Liberado para concorrer, Michael Bloomberg gastou do próprio bolso quase 100 milhões de dólares em sua campanha, 10 vezes mais do que seu adversário democrata, Bill Thompson. Venceu com 50,6% dos votos. Tem um monte de blogueiro por aí comparando Bloomberg com Hugo Chavez, mas não vou cair nessa tentação. Gente, não tem nada a ver!


A chamada Marcha para Jesus pode ser muita coisa, menos o que o nome pressupõe ser. Talvez fosse mais apropriado chamá-la de Marcha do Orgulho Evangélico, uma espécie de antítese ou mesmo antídoto para a Marcha do Orgulho Gay. E orgulho de ser é coisa de quem não o é em paz. O que levou esses cerca de 1 milhão de jovens evangélicos a caminhar durante todo o dia sob o sol quente num carnaval-gospel-fora-de-época não é outra coisa senão o sentimento de pertencer a um grupo discriminado (o que se confunde com fervor religioso ou até demonstração de fé).

“Derrubando Gigantes” foi o tema da marcha deste ano. Segundo o bispo da Renascer em Cristo e organizador do evento, Estevam Hernandes, “os maiores gigantes são a discriminação e a incompreensão”. Estevam e sua mulher, Sônia, participaram da Marcha para Jesus pela primeira vez depois de dois anos e meio vivendo nos Estados Unidos, onde foram presos e condenados por entrar com 56 mil dólares não-declarados escondidos em uma mala, num porta CD e numa bíblia. Eles são os mártires desse movimento de injustiçados.

Esse complexo de perseguição é a venda que impede os evangélicos de enxergar o óbvio: os interesses pessoais, a desonestidade cínica e a promiscuidade de suas lideranças mais conhecidas, que usam os “gigantes” que combatem (e um punhado de promessas) como instrumento para controlar e manipular boas almas.

É inegável que os evangélicos são vítimas de preconceitos ou do estereótipo que vivem a reforçar, mas também o são outros movimentos religiosos, como o candomblé, e os gays, os negros, os pobres, as mulheres e as loiras que usam microvestidos nas universidades. Até que entendam isso, vão se prestar a ser a moeda com que pastores, bispos e apóstolos seduzem políticos e compram seu acesso ao poder.


A tese é bastante contestada pelos estudiosos do clima, mas não deixa de ser interessante.

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O governo federal apresenta nesta quinta-feira os detalhes de um novo instrumento de fiscalização de trânsito, o Siniav (Sistema Nacional de Identificação Automática de Veículos).

Em alguns anos, todos os carros terão que andar com um chip que transmitirá para antenas espalhadas pelas ruas e avenidas uma série de informações sobre a condição do veículo e de seu motorista.

Assim, os órgãos fiscalizadores saberão em tempo real a localização exata desde quem está trafegando em situação irregular, sem licenciamento ou com multas e IPVA atrasados, a quem acabou de roubar um carro ou efetuar um seqüestro.

É apenas mais um instrumento à disposição de uma sociedade de controle em que os cidadãos se submetem cada vez mais a uma vigilância contínua, onipresente e invisível.

Fenômeno dos tempos pós-modernos, que se impõe ao mesmo tempo com força e sutileza em todo o mundo globalizado.

Nem por isso deixa de ser temerário, especialmente porque revela como os anseios de liberdade deram lugar aos desejos de segurança e punição, a ponto de abrirmos mão de liberdades individuais em favor de um Estado déspota, que aumenta seu aparato de fiscalização e a lista de condutas puníveis em nome de um suposto bem-estar coletivo.

Esta é basicamente a minha birra contra as leis seca e antifumo, cujos méritos em si não tenho como questionar. Como também não se questionará o novo chip se cumprir a promessa de revolucionar o trânsito nas grandes cidades, impedido que circulem os carros “clandestinos” – em São Paulo, onde o problema é mais grave, estima-se que sejam até 30% da frota.

Mais uma vez, contudo, é o caso de se perguntar a que preço. Rousseau dizia que se vive tranquilo nas masmorras sem que isso seja suficiente para que nos sintamos bem nelas e que não há qualquer recompensa para quem renuncia à liberdade. Para ele, “renunciar à liberdade é renunciar à qualidade de homem, aos direitos da humanidade e até aos próprios deveres”.


Apocalipse Now

27Out09

A famosa troca de cartas entre o filósofo italiano Umberto Eco e o cardial de Roma Carlo Maria Martini, publicadas na década de 90 pela revista liberal e, posteriormente, compiladas em livro (“Em que crêem os que não crêem”), toca num tema que vem bem a calhar em meio a toda essa discussão sobre aquecimento global: a “obsessão laica pelo novo Apocalipse”.

O Apocalipse da Bíblia Sagrada é o livro em que o apóstolo João conta as revelações que recebeu sobre o fim dos tempos. Nele, invoca imagens pouco agradáveis de tempestades de pedra e fogo, queda de estrelas, mar transformado em sangue e uma temida Besta que surge do abismo para dominar a Terra. Essas imagens alimentaram os medos mais sombrios de sucessivas gerações ao longo dos últimos dois mil anos, especialmente na passagem do primeiro milênio.

Supostamente, esses terrores teriam sido aniquilados pelo alvorecer do Iluminismo ou, pelo menos, circunscritos aos muros da igreja. Contudo, as duas guerras mundiais, a iminência de um conflito nuclear, as novas biotecnologias, a fome de continentes inteiros, o buraco na camada de ozônio, o aquecimento global e o derretimento das calotas polares não apenas reforçaram a ideia de um novo apocalipse, como lhe deram respaldo científico: efetivamente, a existência humana corre perigo.

O curioso é que preferimos lidar com esse medo no plano inconsciente e isso talvez explique as dezenas de filmes de catástrofe que, de tempos em tempos, lotam as salas de cinema. A humanidade parece fascinada pelo próprio fim, o que denuncia seu conformismo cínico em relação ao futuro e que acaba por definir também sua atitude em relação ao presente. Neste, não há espaço para ideologias ou solidariedade; apenas para o consumo.

Curiosamente, a igreja vem se afastando da ideia do armagedom como um evento histórico ou, pelo menos, um evento histórico iminente, relegando-o a um terreno místico, espiritual, de uma outra terra, de um outro tempo. Mesmo as dissidências pentecostais, que até muito pouco tempo atrás anunciavam a volta de Jesus a qualquer instante, parecem hoje muito mais dispostas a aderir ao cristianismo em sua forma mais utilitária: o que se convencionou chamar de teologia da prosperidade.

A ponto de Umberco Eco afirmar que o pensamento do fim dos tempos hoje é mais típico do mundo laico do que do mundo cristão. Talvez se explique pelo fato de que o fim dos tempos não possui o mesmo significado para crentes e não-crentes. Se, para estes, é a inevitável destruição da vida humana – talvez necessária para que o resto do planeta possa sobreviver – para aqueles, é a esperança final de uma nova ordem em que imperem o amor e a justiça e que, por isso mesmo, talvez deva ser apressada. Afinal, é para a “redenção” e a “salvação” que caminha a história dos cristãos.

Toda essa elucubração esconde uma pergunta: existe alguma chance de a humanidade transformar seus temores de um novo apocalipse em comprometimento com as futuras gerações?   

Para o filósofo, Esperança é a palavra-chave para a resposta. Haveria uma noção de esperança e de responsabilidade em relação ao amanhã que poderia ser compartilhada por crentes e não-crentes? Se sim, em que poderia basear-se? Se não, “seria justo que, mesmo sem pensar no fim, aceitássemos que ele se aproxima, nos instalássemos diante da televisão e esperássemos que alguém nos divertisse, enquanto as coisas seguiriam como estão. E ao Diabo os que virão”.

Que venha Copenhague!


Tenho a impressão de que sujeitos como Parkinson, Alzheimer e Crohn não ficaram exatamente satisfeitos por emprestar seus nomes a suas descobertas.

Certamente, seus homônimos e descendentes ficaram bem descontentes.

Como imagino que as próximas gerações de Marias da Penha também prefeririam não ter seus nomes associados a uma lei que pune maridos violentos.

Chamar-se Gerson padece da mesma infelicidade.

E o responsável é o senhor que aparece na foto e no vídeo.

gersonSem refinamento intelectual suficiente para comentar uma partida de futebol, o tricampeão mundial pela Seleção Brasileira de 1970 deu uma das maiores contribuições para a sociologia ao resumir, em uma frase, aquilo que se supõe ser um dos principais traços da ética (ou falta dela) do brasileiro: querer levar vantagem em tudo.

Segundo a Lei de Gerson, o Brasil é a nação dos espertalhões e canalhas, uma antítese ao bom-mocismo protestante do primeiro mundo – embora tenha a impressão de que, a rigor, não existe bobo em lugar nenhum.

Você pode concordar ou não com a tese, que pretendo discutir mais à frente.

O que não pode é um único nome carregar a má fama de uma população inteira de Josés, Fernandos, Paulos, Orestes e Ricardos que passam a vida a tirar vantagem dos outros.