Pelo direito de acreditar
Uma recente discussão de boteco com amigos sobre o fundamento lógico das crenças (na verdade, de uma crença) me levou a uma conclusão tardia, embora óbvia. Efetivamente, não há espaço para Deus em qualquer perspectiva racional.
Não existe evidência científica da existência divina, da vida após a morte ou de eventos extraordinários assim definidos como milagres, como tampouco há fundamentos concretos capazes de justificar a influência dos astros sobre o comportamento das pessoas ou algo que o valha.
Contudo, há inegavelmente muitas coisas sobre as quais o homem sabe assustadoramente pouco ou nada. Uma esfera de conhecimento à qual o método científico não tem acesso e sobre a qual a sociologia é absolutamente ignorante. E uma insaciável necessidade de transcender que você pode chamar de fé.
De fato, esse é um terreno fértil para manipulações, construção de projetos de poder e sistemas de controle, opressões cruéis, intolerância e conflito, corrupção, abuso e charlatanismos de toda ordem – uns, caricaturalmente escancarados, outros sutis e, por isso, mais perigosos. Podemos falar sobre tudo isso depois.
Mas nem o mais cético e calejado dos indivíduos pode negar. No quebra-cabeça cósmico da existência, há uma peça crucial faltando. Uma fronteira desconhecida e silenciosa, delimitada pelos limites das ciências naturais e, portanto, inacessível para elas.
Daí por que sou muito mais simpático aos agnósticos, que admitem haver, dos que aos ateus, para os quais nada há além das dimensões conhecidas e devidamente exploradas. Em termos práticos, é impossível atestar a inexistência do que não se conhece, mesmo sendo obrigado a concordar que, neste caso, o ônus esteja com quem tenta provar o contrário.
Talvez o maior equívoco cometido pelas grandes religiões (e não foram poucos) em resposta ao humanismo tenha sido justamente tentar provar-se uma verdade absoluta.
O cristianismo, em particular, vive a patrocinar esforços constrangedores no sentido de impor suas verdades supostamente históricas, seja a de que o mundo foi criado em sete dias (na verdade seis, porque no sétimo o Senhor descansou) ou a de que Noé construiu uma arca suficientemente grande para comportar um casal de cada espécie animal durante o dilúvio.
Ao submeter-se a essa leitura literal e geométrica dos relatos, esvaziou-se de todo seu simbolismo e metáfora, sacrificou seu caráter místico e, sobretudo, perdeu a capacidade de compreender o mundo em sua própria linguagem e encontrar, mais do que respostas para as grandes perguntas, uma noção de sentido para a vida.
Por isso, sou cada vez mais tentado a acreditar que o lugar de qualquer crença é ao lado das artes, da filosofia, da poesia e suas alegorias, do que é belo, completa, encanta e assombra a alma. Sua verdade é necessariamente relativa, interna e, sobretudo, existencial. Nem mais nem menos importante do que a verdade científica, apenas pertencente a outro mundo.
Toda essa digressão para dizer aos amigos da referida discussão de boteco: não, não há nenhum fundamento lógico. Mas deveria haver?
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Ideologia esvaziada
Tudo começou com uma discussão sobre o ex-jogador Sócrates. Um jornalista com décadas de profissão se levanta e lança o argumento que pretende encerrar a questão sobre as razões de sua popularidade: “a simpatia por Sócrates só se justifica por razões puramente ideológicas”, sentenciou.
Fui obrigado a concordar, mas não digeri o argumento subjacente. Afinal, por que as tais “razões puramente ideológicas” deveriam ser um problema?
“Ideológico” tornou-se um adjetivo desabonador nos dias de hoje, um rótulo rapidamente usado para desqualificar opiniões e pessoas supostamente incapazes de se enquadrar e aceitar a verdade científica, concreta e inalienável das coisas em prol de um conjunto de dogmas qualquer.
A ordem é ser “pragmático”, como se o pragmatismo não fosse, ele próprio, a essência da ideologia hoje hegemônica. De fato, uma das grandes conquistas do pensamento liberal-conservador em sua batalha pelas mentes e corações foi ser capaz de se despir de seu caráter ideológico e se apresentar como uma ordem natural, lógica e neutra.
Uma ordem que está dada desde os primórdios e deve ser preservada, sob o risco de se corromperem instituições tidas como sagradas e se estabelecer o caos. Por isso, quem ousa pregar algum tipo de subversão deve naturalmente ser visto como ameaça.
O objetivo de quem dá as cartas nesse jogo é muito simples: esconder as relações de poder e interesse por trás de questões supostamente “técnicas”, sobretudo aquelas ligadas à gestão da economia.
Só que a lógica da eficiência e da maximização de resultados extrapola os limites econômicos e se faz perceber em qualquer área da vida cotidiana, da literatura à religião ou ao futebol, com maior ou menor intensidade.
Nesse ambiente, o componente estritamente político-ideológico das coisas não se manifesta e, quando o faz, é rechaçado. Por isso movimentos políticos e sociais são frequentemente acusados de “ideologizar” ou “dogmatizar” temas como a exploração da terra, a desigualdade social ou a preservação do meio ambiente.
Não é à toa que na Europa políticos de carreira caiam e deem lugar a burocratas. O argumento, repetido à exaustão, é que a solução para a crise esbarra no “obstáculo político”, ou seja, na necessidade dos governantes democraticamente eleitos de se justificarem perante suas populações por decisões que comprometem o bem-estar e contrariam os interesses da maioria.
Só que toda decisão é política, à medida que pressupõe uma escolha entre quem ganha e quem perde. E a melhor maneira de justificar certas escolhas é fazer uso de um aparato ideológico que não possa ser combatido como tal: o aclamado “embasamento técnico”. Foi o que permitiu que os ricos dos países desenvolvidos fossem privilegiados por políticas tributárias regressivas nas últimas décadas sem despertar convulsões sociais.
O que resta desse esvaziamento ideológico é o desalento da sociedade com a política como instrumento de mediação de poder, o que significa abrir caminho para que interesses econômicos se imponham sem qualquer forma de resistência. Mais do que isso, a sensação de que não resta nada pelo que valha a pena lutar.
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Fundamentalismo secular
Uma das piores características associadas à igreja, um ambiente que conheci razoavelmente bem, é a incapacidade de discutir idéias e a intolerância ao debate. Fundamentalistas religiosos resistem a qualquer possibilidade de diálogo, rejeitam questionamentos, rotulam e atacam seus adversários. São incapazes de relativizar, ver em perspectiva, conceber outras visões, leituras e matizes. Para eles, há o certo e o errado, e qualquer coisa que pretenda se colocar entre os dois deve ser imediatamente rechaçada.
O fundamentalismo religioso é compreensível em alguns aspectos. Pode ser visto como estratégia de defesa da fé, do sentimento de unidade e do fervor coletivo, sem os quais uma crença perde poder de mobilização. Trata-se de uma dinâmica interna, circular. Refutável, mas compreensível.
Difícil é entender como esse padrão de comportamento é reproduzido em ambientes que, em oposição às instituições religiosas, deveriam mais ser abertos, arejados, acessíveis e democráticos. Basta ver o tom das últimas grandes discussões que pautaram as redes sociais e a imprensa.
Quer tratemos da invasão dos estudantes à reitoria da USP, da campanha para que Lula se trate no SUS ou dos escândalos de corrupção no governo federal, saltam aos olhos a estridência dos discursos, a polarização das posições, os estigmas e o ódio mútuo no conteúdo das mensagens.
Impossível não haver radicalizações, e não desejá-las até, em um mundo marcado por desigualdades e injustiças intoleráveis. Todo mundo é diferente, e nada mais natural que das diferenças emirjam conflitos. A raiz do radicalismo a que me refiro é outra; é religiosa.
É a necessidade quase desesperada de gente mais ou menos intelectualizada de marcar posição, escolher um lado e pertencer a um grupo que possa ser mobilizado e distinguido em uma época em que os limites entre direita e esquerda, liberalismo e conservadorismo, são muitíssimo menos claros do que nos anos 1960. Vivemos tempos em que tudo se mistura, se confunde e se contradiz.
Daí decorre, imagino, a reação que transforma o simples cumprimento de uma ordem judicial em “ameaça à democracia e à liberdade de opinião” e um estudante flagrado fumando maconha em “ameaça à ordem pública e aos bons costumes”.
O debate perde o prumo e o tempo, desconecta-se da realidade. Ganha quem grita mais alto – e ouve menos. Sem maturidade e, sobretudo, honestidade intelectual, as idéias logo se transformam em dogmas tão rígidos e intocáveis como o nascimento virginal de Cristo para os cristãos. Questioná-las é tarefa para os hereges, e os hereges devem ser apedrejados.
A consequência é que temos, nas nossas catedrais seculares, uma legião de pastores pregando para convertidos, com chances apenas marginais de troca com o mundo exterior (no máximo, algumas conversões de gente em busca de um grupo para se afirmar).
A ordem é: frequente apenas as comunidades, siga apenas as pessoas e leia apenas os autores que ecoem as idéias com as quais você se identifica. Assim não terá o risco de conviver com marxistas que admitam a hipótese de o capitalismo ter produzido incontáveis avanços, eleitores de Lula que reconheçam o legado de FHC ou cristãos dispostos a aceitar a teoria da evolução e a homossexualidade.
Uma opção preguiçosa, mas segura.
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Tags:conservadorismo, Cristianismo, direita, esquerda, FHC, fundamentalismo, ideias, liberalismo, Lula, secularismo, USP
11/09
A essa altura todo mundo já deve estar bem saturado da avalanche de homenagens, documentários, análises, crônicas e narrativas melodramáticas sobre os ataques de 11 de setembro de 2001.
Já sacou que a queda do WTC mudou “para sempre” a história, deu início à famigerada “Guerra ao Terror” ou à “guerra permanente”, que foi o evento “definidor” da última década, instalou o medo e, de algum modo, marcou o “início do fim” da hegemonia americana no mundo.
Já foi instigado a se lembrar do que fazia no exato momento em que os aviões atingiram as Torres Gêmes, da inigualável sensação de testemunhar um acontecimento histórico, do misto de horror, paralisia e excitação que tomou conta das pessoas mundo afora.
Viu e reviu, algumas dezenas de vezes, as imagens cinematográficas do desastre, as pessoas se jogando do alto para não morrerem queimadas, e a imponente construção de aço e concreto transformando-se em uma nuvem de poeira a perseguir os que estavam no chão.
Leu outras dezenas de análises conciliando expressões como terrorismo, islã, opressão, liberdade, segurança, democracia, intolerância e imperialismo, com conclusões variadas e ao gosto do leitor e suas inclinações ideológicas.
Ao fim disso tudo, parece não restar nada além de um vazio.
O mesmo vazio que emerge da morte de milhares de crianças pela fome na Somália, neste momento. Ou do massacre de muçulmanos, na Bósnia, e de mais de um milhão de tutsis, em Ruanda, na década passada (eventos talvez ignorados pela maioria das pessoas).
Nada além de um vazio. Exceto uma profunda e silenciosa descrença no homem.
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Sobre a despedida que não vi
As chuvas e ventos de ontem à noite derrubaram a luz, e não pude ver um lance sequer da despedida de Ronaldo dos gramados.
Lamentei o fato ainda enquanto caçava, em vão, as velas e fósforos perdidos nas gavetas abarrotadas de velharias. Os celulares foram a única fonte de claridade, enquanto as baterias resistiram.
Lá pelas tantas me conformei com a falta de velas, fósforos e futebol na TV. E concluí que, na verdade, não estava perdendo nada que já não tivesse visto.
Ronaldo despediu-se do futebol há tempos, aos poucos e de modo melancólico.
Ontem deu adeus à Seleção que nunca mais, desde o fiasco de 2006, quis saber do Fenômeno. Terminou um namoro que já estava acabado, por assim dizer.
Logo me pus a pensar na festa pobre armada pela CBF, nas claques, nos elogios ufanistas do amigo Galvão e no próprio Ronaldo, uma caricatura medonha do atleta que foi.
Intuí que a despedida de um dos maiores atacantes dos últimos tempos deve ter sido um evento triste (corrijam-me se estiver errado).
Ronaldo certamente não precisava disso. Mas, talvez convencido pelo marketing da superação - essa coisa gasta de cair e dar a volta por cima, de ser brasileiro e não desistir nunca - passou e muito da hora de parar.
Ao se dispor a jogar com mais de 100 quilos, virou motivo de chacota ou, na melhor das hipóteses, compaixão.
De repente, me lembrei da genial despedida de seu amigo Zidane que, com um único gesto, em plena final da Copa do Mundo, mandou às favas o mundo do futebol.
Ao dar aquela cabeçada no peito de Materazzi, Zidane ignorou solenemente os interesses que o cercavam, a importância de uma Copa do Mundo, a grana dos anunciantes, os cartolas e sua politicagem, o fair-play da Fifa, as homenagens hipócritas nas semanas subsequentes, o título de melhor do mundo, os elogios do Galvão Bueno e a expectativa de bilhões de espectadores.
Fez o que achou certo e ainda declarou, dias depois, que preferia morrer a pedir desculpas. Isso se chama orgulho.
Foi exatamente o que faltou a Ronaldo.
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Tags:CBF, despedida, futebol, Galvão Bueno, Ronaldo, Seleção brasileira, Zidane
Emergência e desenvolvimento
Barack Obama fez na semana passada um interessante discurso sobre a relação de forças entre Estados Unidos, Europa e os países emergentes, especificamente Brasil, China e Índia.
Basicamente, defendeu que, a despeito do forte crescimento de suas economias, nenhum dos neófitos citados está preparado para assumir a liderança desempenhada hoje por norte-americanos e europeus.
“Há quem acredite que tal crescimento virá junto com a decadência inevitável da influência de nossos países no mundo. Há quem diga que essas nações são o futuro e nós, o passado, mas isso está errado. O tempo para nossa liderança é agora”, afirmou Obama.
De fato, ninguém acredita que a China, a desbancar os EUA como maior economia até o fim da década, esteja perto de fazer algo semelhante sob os aspectos político e militar.
Índia e, principalmente, Brasil talvez nunca estejam.
Ao explicar o porquê, Obama parece falar em particular a nós, brasileiros: “A prosperidade duradoura não vem do que uma nação consome, mas do que produz e de quais investimentos faz em sua gente e infraestrutura.”
Por este raciocínio, o Brasil pode até ser um mercado promissor, mas ainda está longe de ser um país desenvolvido.
Só posso concordar.
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Tags:Brasil, Bric, China, Desenvolvimento, emergentes, Estados Unidos, Obama
Os quase 30
Dois dias atrás publiquei aqui o link para a versão brasileira de “I don´t want to grow up”, dos Ramones. Hoje, coloco mais um traço na lousa. Agora, são 29.
A gente lamenta, resmunga, esperneia e ousa até negar, mas crescer é inevitável. Cantar “eu não quero crescer” é um ato de protesto legítimo, mas do qual não se pode esperar muito.
De todo modo, os quase 30 fazem pensar. Você ainda é jovem, sente que tem a vida pela frente e vigor para vivê-la, mas coleciona cada vez mais evidências de que não tem mais 18 anos.
Cada vez mais, assume responsabilidades, lida com problemas e faz escolhas de gente grande. Enfrenta pressões crescentes e uma enorme pressão para não errar. Talvez por isso mesmo, fica mais nostálgico em relação à infância, aos anos de colégio, aos amigos de faculdade. E, quando tenta revisitá-los, descobre que não estão mais lá.
Ao menos, claro, não da maneira que você se lembrava. Talvez este seja o ponto-chave: as coisas, pessoas e experiências têm um significado particular intrínseco ao tempo em que são vividas. Poucas, pouquíssimas, se eternizam. As demais viram simpáticas peças de museu.
Os quase 30 são um bom momento para sacar isso. De repente, percebe-se que a vida, cavalheira, lhe oferece novos prazeres e possibilidades.
Você descobre que a sorte de um amor tranqüilo, com o tal gosto de fruta mordida, pode ser mais gostoso que muitos arroubos de paixão; que cozinhar um risoto de funghi a dois, saboreando uma boa garrafa de vinho, pode ser mais divertido que o restaurante da moda; que reunir os amigos no domingo à tarde faz mais sentido que espremê-los em alguma balada madrugada a dentro; e que comprar a sua casa, preciso dizer, dá um orgulho danado!
Aprende que a vida está aí para ser vivida (argh, desculpem o clichê). Mas, sobretudo, que isso tem muito pouco a ver com nunca crescer.
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Tags:aniversário, Eu não quero crescer, Pitty, Ramones, Thunderboard
Eu não quero crescer
A música é bobinha, despretensiosa mesmo, mas gostosa de ouvir. A versão brasileira de “I don´t want to grow up”, dos Ramones. Dica para relaxar!
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Caça às bruxas
A enxurrada de críticas aos deputados Jair Bolsonaro e Marco Feliciano, pelas declarações que fizeram na semana passada, merece algumas considerações.
Ninguém em sã consciência espera qualquer coisa menos que o repúdio aos boçais. O achincalhamento público de que foram vítimas foi mais do que merecido.
Menos pelas posições, em si, lastimáveis, do que pelo despreparo intelectual. Afinal, a homofobia ofende meus princípios, mas sustentar que a África é miserável devido a uma maldição dos tempos de Noé ofende a minha inteligência.
Mas começo a me preocupar quando a coisa descamba para a caça às bruxas. É muito tentador pedir a cassação de Bolsonaro e Feliciano.
E, para muitos, desejável que indivíduos como eles jamais tivessem voz – a ponto de haver até quem cobrasse alguma punição ao CQC por ter dado espaço a Bolsonaro.
A democracia impõe um fardo realmente incômodo: pressupõe a convivência com gente que você não tolera.
Honestamente, preferiria não ter de ouvir fundamentalistas, boçais, retrógrados ou fóbicos de qualquer natureza. Mas não é este um preço a se pagar pela democracia? Mas algumas pessoas acreditam que seus valores, sendo nobres, devem prevalecer ainda que à força – uma espécie de ditadura dos bons.
Não, não estou ao lado dos que acham que a democracia aceita qualquer tipo de ofensa. Algumas posições são simplesmente intoleráveis.
Mas qual é e quem define tal limite?
Não sei se há uma resposta objetiva a essa pergunta.
Mas creio que as sociedades, à medida que evoluem, constroem alguns consensos. Como contra o racismo, para citar o exemplo mais evidente.
Agora, com algum atraso, aos poucos e a duras penas, começa-se a construir um consenso também contra a homofobia – que há de esbarrar em questões mais sensíveis e complexas.
Contudo, este passo ainda não foi dado. Deputados como Bolsonaro e Feliciano ainda têm o respaldo de setores expressivos do eleitorado – os mesmos que conseguiram impor sua agenda na última eleição presidencial. Eles não podem ser ignorados.
Por isso, cassar os deputados é um erro. Melhor seria chamá-los para o debate e confrontá-los em público. Certas posições precisam ser manifestadas publicamente para que possam ser contestadas também publicamente, até que percam qualquer resquício de legitimidade.
Não é uma tarefa fácil. A democracia leva tempo.
Filed under: Brasil, eleições 2010, Política | 2 Comentários
Tags:democracia, homofobia, homossexualismo, Jair Bolsonaro, Marco Feliciano, preconceito, racismo
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