City of muchachos
Há coisas que podem acontecer no lado de cima da bola azul, mas jamais no lado de baixo. Feita a constatação, registro com atraso que o prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, foi reeleito na terça-feira para um terceiro mandato seguido. Isso mesmo: terceiro mandato. O bilionário das comunicações conseguiu que os legisladores nova-iorquinos mudassem a lei, que antes previa apenas dois mandatos de quatro anos, para que ele pudesse prolongar sua estadia na City Hall. Liberado para concorrer, Michael Bloomberg gastou do próprio bolso quase 100 milhões de dólares em sua campanha, 10 vezes mais do que seu adversário democrata, Bill Thompson. Venceu com 50,6% dos votos. Tem um monte de blogueiro por aí comparando Bloomberg com Hugo Chavez, mas não vou cair nessa tentação. Gente, não tem nada a ver!
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Tags: eleições, Estados Unidos, Michael Bloomberg, Nova York, Política, terceiro mandato
Marcha soldado cabeça de papel
A chamada Marcha para Jesus pode ser muita coisa, menos o que o nome pressupõe ser. Talvez fosse mais apropriado chamá-la de Marcha do Orgulho Evangélico, uma espécie de antítese ou mesmo antídoto para a Marcha do Orgulho Gay. E orgulho de ser é coisa de quem não o é em paz. O que levou esses cerca de 1 milhão de jovens evangélicos a caminhar durante todo o dia sob o sol quente num carnaval-gospel-fora-de-época não é outra coisa senão o sentimento de pertencer a um grupo discriminado (o que se confunde com fervor religioso ou até demonstração de fé).
“Derrubando Gigantes” foi o tema da marcha deste ano. Segundo o bispo da Renascer em Cristo e organizador do evento, Estevam Hernandes, “os maiores gigantes são a discriminação e a incompreensão”. Estevam e sua mulher, Sônia, participaram da Marcha para Jesus pela primeira vez depois de dois anos e meio vivendo nos Estados Unidos, onde foram presos e condenados por entrar com 56 mil dólares não-declarados escondidos em uma mala, num porta CD e numa bíblia. Eles são os mártires desse movimento de injustiçados.
Esse complexo de perseguição é a venda que impede os evangélicos de enxergar o óbvio: os interesses pessoais, a desonestidade cínica e a promiscuidade de suas lideranças mais conhecidas, que usam os “gigantes” que combatem (e um punhado de promessas) como instrumento para controlar e manipular boas almas.
É inegável que os evangélicos são vítimas de preconceitos ou do estereótipo que vivem a reforçar, mas também o são outros movimentos religiosos, como o candomblé, e os gays, os negros, os pobres, as mulheres e as loiras que usam microvestidos nas universidades. Até que entendam isso, vão se prestar a ser a moeda com que pastores, bispos e apóstolos seduzem políticos e compram seu acesso ao poder.
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Tags: Estevam Hernandes, evangélicos, Marcha para Jesus, preconceito, puta da uniban, Religião, Renascer em Cristo, Sônia Hernandes
Esfriamento global?
A tese é bastante contestada pelos estudiosos do clima, mas não deixa de ser interessante.
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Controle virtual
O governo federal apresenta nesta quinta-feira os detalhes de um novo instrumento de fiscalização de trânsito, o Siniav (Sistema Nacional de Identificação Automática de Veículos).
Em alguns anos, todos os carros terão que andar com um chip que transmitirá para antenas espalhadas pelas ruas e avenidas uma série de informações sobre a condição do veículo e de seu motorista.
Assim, os órgãos fiscalizadores saberão em tempo real a localização exata desde quem está trafegando em situação irregular, sem licenciamento ou com multas e IPVA atrasados, a quem acabou de roubar um carro ou efetuar um seqüestro.
É apenas mais um instrumento à disposição de uma sociedade de controle em que os cidadãos se submetem cada vez mais a uma vigilância contínua, onipresente e invisível.
Fenômeno dos tempos pós-modernos, que se impõe ao mesmo tempo com força e sutileza em todo o mundo globalizado.
Nem por isso deixa de ser temerário, especialmente porque revela como os anseios de liberdade deram lugar aos desejos de segurança e punição, a ponto de abrirmos mão de liberdades individuais em favor de um Estado déspota, que aumenta seu aparato de fiscalização e a lista de condutas puníveis em nome de um suposto bem-estar coletivo.
Esta é basicamente a minha birra contra as leis seca e antifumo, cujos méritos em si não tenho como questionar. Como também não se questionará o novo chip se cumprir a promessa de revolucionar o trânsito nas grandes cidades, impedido que circulem os carros “clandestinos” – em São Paulo, onde o problema é mais grave, estima-se que sejam até 30% da frota.
Mais uma vez, contudo, é o caso de se perguntar a que preço. Rousseau dizia que se vive tranquilo nas masmorras sem que isso seja suficiente para que nos sintamos bem nelas e que não há qualquer recompensa para quem renuncia à liberdade. Para ele, “renunciar à liberdade é renunciar à qualidade de homem, aos direitos da humanidade e até aos próprios deveres”.
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Apocalipse Now
A famosa troca de cartas entre o filósofo italiano Umberto Eco e o cardial de Roma Carlo Maria Martini, publicadas na década de 90 pela revista liberal e, posteriormente, compiladas em livro (“Em que crêem os que não crêem”), toca num tema que vem bem a calhar em meio a toda essa discussão sobre aquecimento global: a “obsessão laica pelo novo Apocalipse”.
O Apocalipse da Bíblia Sagrada é o livro em que o apóstolo João conta as revelações que recebeu sobre o fim dos tempos. Nele, invoca imagens pouco agradáveis de tempestades de pedra e fogo, queda de estrelas, mar transformado em sangue e uma temida Besta que surge do abismo para dominar a Terra. Essas imagens alimentaram os medos mais sombrios de sucessivas gerações ao longo dos últimos dois mil anos, especialmente na passagem do primeiro milênio.
Supostamente, esses terrores teriam sido aniquilados pelo alvorecer do Iluminismo ou, pelo menos, circunscritos aos muros da igreja. Contudo, as duas guerras mundiais, a iminência de um conflito nuclear, as novas biotecnologias, a fome de continentes inteiros, o buraco na camada de ozônio, o aquecimento global e o derretimento das calotas polares não apenas reforçaram a ideia de um novo apocalipse, como lhe deram respaldo científico: efetivamente, a existência humana corre perigo.
O curioso é que preferimos lidar com esse medo no plano inconsciente e isso talvez explique as dezenas de filmes de catástrofe que, de tempos em tempos, lotam as salas de cinema. A humanidade parece fascinada pelo próprio fim, o que denuncia seu conformismo cínico em relação ao futuro e que acaba por definir também sua atitude em relação ao presente. Neste, não há espaço para ideologias ou solidariedade; apenas para o consumo.
Curiosamente, a igreja vem se afastando da ideia do armagedom como um evento histórico ou, pelo menos, um evento histórico iminente, relegando-o a um terreno místico, espiritual, de uma outra terra, de um outro tempo. Mesmo as dissidências pentecostais, que até muito pouco tempo atrás anunciavam a volta de Jesus a qualquer instante, parecem hoje muito mais dispostas a aderir ao cristianismo em sua forma mais utilitária: o que se convencionou chamar de teologia da prosperidade.
A ponto de Umberco Eco afirmar que o pensamento do fim dos tempos hoje é mais típico do mundo laico do que do mundo cristão. Talvez se explique pelo fato de que o fim dos tempos não possui o mesmo significado para crentes e não-crentes. Se, para estes, é a inevitável destruição da vida humana – talvez necessária para que o resto do planeta possa sobreviver – para aqueles, é a esperança final de uma nova ordem em que imperem o amor e a justiça e que, por isso mesmo, talvez deva ser apressada. Afinal, é para a “redenção” e a “salvação” que caminha a história dos cristãos.
Toda essa elucubração esconde uma pergunta: existe alguma chance de a humanidade transformar seus temores de um novo apocalipse em comprometimento com as futuras gerações?
Para o filósofo, Esperança é a palavra-chave para a resposta. Haveria uma noção de esperança e de responsabilidade em relação ao amanhã que poderia ser compartilhada por crentes e não-crentes? Se sim, em que poderia basear-se? Se não, “seria justo que, mesmo sem pensar no fim, aceitássemos que ele se aproxima, nos instalássemos diante da televisão e esperássemos que alguém nos divertisse, enquanto as coisas seguiriam como estão. E ao Diabo os que virão”.
Que venha Copenhague!
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Tags: apocalipse, aquecimento global, ateísmo, Carlo Maria Martini, em que creem os que não creem, igreja católica, Umberto Eco
Pelo fim da Lei de Gerson
Tenho a impressão de que sujeitos como Parkinson, Alzheimer e Crohn não ficaram exatamente satisfeitos por emprestar seus nomes a suas descobertas.
Certamente, seus homônimos e descendentes ficaram bem descontentes.
Como imagino que as próximas gerações de Marias da Penha também prefeririam não ter seus nomes associados a uma lei que pune maridos violentos.
Chamar-se Gerson padece da mesma infelicidade.
E o responsável é o senhor que aparece na foto e no vídeo.
Sem refinamento intelectual suficiente para comentar uma partida de futebol, o tricampeão mundial pela Seleção Brasileira de 1970 deu uma das maiores contribuições para a sociologia ao resumir, em uma frase, aquilo que se supõe ser um dos principais traços da ética (ou falta dela) do brasileiro: querer levar vantagem em tudo.
Segundo a Lei de Gerson, o Brasil é a nação dos espertalhões e canalhas, uma antítese ao bom-mocismo protestante do primeiro mundo – embora tenha a impressão de que, a rigor, não existe bobo em lugar nenhum.
Você pode concordar ou não com a tese, que pretendo discutir mais à frente.
O que não pode é um único nome carregar a má fama de uma população inteira de Josés, Fernandos, Paulos, Orestes e Ricardos que passam a vida a tirar vantagem dos outros.
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A velha bossa
Se os vídeos apresentados pelo Brasil ao Comitê Olímpico Internacional durante a escolha da sede dos Jogos de 2016 se “esquecem” das favelas cariocas, os traficantes fizeram questão de lembrar o mundo – e o próprio Brasil – de que elas continuam lá, no lugar onde sempre estiveram.
Ninguém espera que uma campanha publicitária mostre o que o produto tem de ruim, mas as imagens que correram o mundo neste fim de semana a desqualifica a ponto de parecer uma fraude barata. Dos ônibus incendiados e helicóptero abatido parece não sobrar nada da cidade maravilhosa, alegre e acolhedora apresentada ao som de bossa nova em Copenhague.
O Rio de Janeiro talvez esteja prestes a descobrir o outro lado de se estar em evidência. Se sua escolha para sede das Olimpíadas abre um potencial gigantesco do ponto de vista da promoção da cidade no mundo, também o coloca sob permanente escrutínio da mídia internacional. Falhas não serão perdoadas.
O lado bom dos últimos acontecimentos, se é que existe um, é o choque de realidade. É bom que as pessoas não se deixem levar pelo marketing do Brasil para gringo ver, porque esse Brasil não existe nem no esboço da realidade.
Não tenho a menor dúvida de que o Rio vai conseguir realizar as Olimpíadas com razoável competência. Durante os vinte e poucos dias de evento, a cidade estará limpa e segura, com o tráfico sob controle. Os turistas vão gostar e poderão até voltar. Mas, para as pessoas que ficam, o vídeo será outro.
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Tags: Gerson Freitas Jr., Olimpíadas 2016, Rio de Janeiro, tráfico, violência
Lula e a decadência do PT
O primeiro programa de TV da campanha que conduziu Lula à presidência em 2002 deixava muito claro seu propósito: assegurar ao eleitor que Lula não governaria sozinho. Em um amplo escritório, dezenas de personalidades do Partido dos Trabalhadores reúnem-se em torno de mesas onde analisam dados, discutem e, ao final, entregam a Lula um programa de governo. Para quem ainda desconfiava da capacidade do candidato que não tinha diploma superior e malemá falava o português, aquele seria o governo de um partido, seria o governo do PT.
Aquelas eram outros tempos, e o PT gozava de outra fama. Dirceu, Genoíno, Gushiken, Suplicy, Palocci, Mercadante e Benedita da Silva, que aparecem no vídeo aí embaixo, eram quadros então respeitáveis e éticos. Seriam eles o governo de fato. Lula era tão somente o símbolo que, de alguma forma, resumia as aspirações de estudantes, trabalhadores, artistas, ambientalistas e movimentos sociais; era, afinal, o maior símbolo da esquerda no Brasil.
A relação entre Lula e PT era simbiótica, interdependente, mas havia razões para crer que era mais fácil o PT sobreviver sem Lula do que Lula sem o PT. O partido parecia e deveria ser maior do que Lula, e não eram poucos os que achavam que o PT chegaria ao poder apenas no dia em que apresentasse outro candidato. Não custa lembrar que, para concorrer em 2002, Lula sujeitou-se a disputar prévias contra Eduardo Suplicy, que viajava o Brasil a defender sua proposta de Renda Mínima contra o Fome Zero de Lula.
De certa forma, essa ordem se manteve até os primeiros anos do governo, antes de Roberto Jefferson dar a entrevista que derrubou do poder as figuras históricas do PT. Dali em diante, Lula teria de se descolar e seguir sozinho. Se, em 2002, os publicitários ressaltavam o partido por trás do presidente, na campanha da reeleição em 2006, o lema era “deixa o homem trabalhar”. Lula tomou as rédeas do governo, costurou acordos e construiu ele próprio sua nova base de sustentação. E não apenas o fez com surpreendente sucesso, como se fortaleceu a ponto de fagocitar o PT.
O que restou de todo esse processo foi um governo muito mais personalista do que o eleito em 2002. Lula passou a ser o partido de si mesmo, das próprias ideias e objetivos, reforçando sua imagem de pai dos pobres e salvador da Pátria. Já o PT, ofuscado pelo seu presidente da República, limita-se a ocupar seu quinhão nas estruturas do poder enquanto agoniza politicamente, sem projeto, sem identidade e sem o apoio dos setores que o sustentaram desde o início. O poder desfigurou o Partido dos Trabalhadores, o que é uma pena. Do ponto de vista da organização político-partidária no País, foi um tremendo retrocesso.
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Tele-evangelista sem tevê?
Parece que os evangélicos argentinos estão irritados com a nova lei de radiodifusão no país. O motivo é que o texto aprovado pelo Senado no último sábado (os senadores argentinos trabalham até no dia do Senhor) determina que a Igreja Católica será a única entidade religiosa a ter direito a licenças de TV e rádio sem necessidade de autorização prévia ou licitação.

Missionário R.R. Soares, da Igreja Internacional da Graça. No Brasil: oito emissoras próprias e 170 retransmissoras em UHF, VHF, cabo e satélite
O Conselho Nacional Cristão Evangélico esbravejou e disse que vai entrar na justiça contra o que chamou de “dolorosa e inexplicável discriminação religiosa”.
Na Argentina, mais de 75% da população é batizada na Igreja Católica, mas apenas 6% se dizem praticantes – número menor que o de ateus, 11,3% da população. Já as igrejas evangélicas e protestantes congregam cerca de 10% dos argentinos, praticamente todos praticantes. Mesmo assim, os evangélicos não possuem bancada no Congresso nem redes de televisão…
Os hermanos precisam urgentemente colocar a bíblia embaixo do braço e fazer um intercâmbio no Brasil.
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Impasse climático
Não vou ficar surpreso se o encontro do Clima em Copenhague, que vai definir os rumos do combate ao aquecimento global na próxima década, terminar mais ou menos como a Rodada Doha, que há oito anos patina em seu objetivo de reduzir as barreiras do comércio mundial.
No discurso, todos os líderes concordam que a liberalização do comércio é boa e justa. Na prática, ninguém está disposto a cortar subsídios e impostos à importação. Com o clima, pode acontecer a mesma coisa. Todo mundo concorda que é preciso reduzir de forma significativa a emissão dos gases que causam o efeito estufa. Na prática…
Supostamente, apenas os países ricos precisam apresentar metas de corte na emissão de gases até 2020. Assim como no protocolo de Quioto, os países pobres e em desenvolvimento ficariam dispensados de uma meta formal, devendo apenas apresentar medidas que sinalizassem um crescimento menor das emissões.
A lógica é simples: os países industrializados são os grandes responsáveis pelo CO2 acumulado na atmosfera global desde a revolução do século 18. Impedir que os países mais pobres queimem petróleo e carvão seria como impedir que eles se industrializassem e alcançassem o mesmo grau de desenvolvimento e riqueza dos países avançados.
Só que reduzir as emissões custa caro, e os países ricos sabem que, se assumirem a bronca sozinhos, verão muitas de suas indústrias perder competitividade e migrar para outros países onde possam produzir sem restrições. Por isso, exigem que as nações emergentes também assumam metas de corte, ainda que mais tímidas.
Os Estados Unidos foram além. O presidente Barack Obama encaminhou ao Congresso um projeto que prevê a cobrança de taxas sobre a importação de países que não adotarem uma meta equivalente à americana. O texto já passou pela Câmara dos Representantes e agora está nas mãos do Senado. Há quem diga que os demais países ricos podem seguir o mesmo caminho.
Convenhamos, não é bem o clima (desculpem o trocadilho) que se espera de uma reunião destinada a salvar o planeta. O aquecimento global é um negócio que envolve riscos, interesses poderosos e muitas oportunidades de negócio. Basicamente, é disso que vamos falar em dezembro, em Copenhague.
Nesse jogo de interesses, ninguém entra em condições tão privilegiadas quanto o Brasil. É muito provável que nenhum outro país tenha tanto potencial para produzir energia limpa e barata. Ao contrário dos outros países em desenvolvimento, dependentes do carvão e do petróleo, o Brasil tem uma matriz predominantemente renovável. Nossa eletricidade vem das hidrelétricas e das usinas de cana e a maioria dos carros anda com álcool. O Brasil tinha tudo para liderar esse debate, apontar soluções e apresentar-se como tal. Mas dá sinais de que pode perder esse barco.
Até semanas atrás, o País sequer tinha uma proposta para apresentar. Nossa posição era muito parecida com a de China e Índia, para quem a responsabilidade de despoluir o planeta é exclusivamente dos países ricos. Apenas agora, há menos de três meses do encontro, o governo discute um plano: congelar as emissões de CO2 nos níveis de 2005 e diminuir em 80% o desmatamento (as queimadas respondem por quase 90% das nossas emissões, embora não tenhamos um inventário atualizado).
A proposta está longe de ser ambiciosa – queimar um dos maiores patrimônios ambientais da humanidade para exportar madeira e criar gado é mesmo coisa de país subdesenvolvido -, mas enfrenta resistências dentro do governo.
A ala desenvolvimentista, liderada pela chefe da Casa Civil e presidenciável Dilma Rousseff, não quer se comprometer com uma meta de corte nas emissões de CO2, porque acredita que o País vai crescer a taxas elevadas nos próximos anos. Para essa turma, crescimento econômico e preservação do meio ambiente são incompátiveis. O risco é o Brasil, que ficou bem para trás na era do pétróleo, segurar a lanterna também na era do baixo carbono.
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Tags: aquecimento global, Brasil, clima, COP-15, Copenhague, Gerson Freitas Jr.
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