Uma reação desumana

09mar09

A decisão do arcebispo dom José Cardoso Sobrinho, de excomungar a mãe e os médicos da menina que interrompeu a gravidez de gêmeos, revela muita coisa sobre a igreja católica, em particular, e as igrejas cristãs, como um todo.

Moisés com as Tábuas da Lei, por Rembrandt: "Não matarás"

Moisés com as Tábuas da Lei, por Rembrandt: "Não matarás"

Revela, antes de qualquer coisa, o quanto a igreja mantém-se enraizada no que há de mais fundamentalista.

Era chamada fundamentalista uma corrente de cristãos protestantes dos Estados Unidos de meados do século XIX. Suas ideias foram postas no papel entre 1909 e 1915, numa coleção de livros sob o título “Fundamentals: a testimony of the Truth” (“Fundamentos: um testemunho da Verdade”).

Basicamente, defendiam que a Bíblia deveria ser lida, compreendida e seguida de forma literal, ao pé da letra.

Os textos sagrados, a Palavra de Deus, eram imutáveis e inquestionáveis sob qualquer perspectiva, fosse histórica, filosófica ou linguística.

Determinou-se então não apenas que a Bíblia era o monopólio da verdade, mas que o monopólio da verdade estava em uma determinada leitura, fechada, da bíblia.

Assim, para um cristão fundamentalista, o mundo foi criado em sete dias, e qualquer evidência científica do contrário afronta a própria concepção de um Deus Criador.

Fundamentalistas são cegos e intolerantes.

Acreditam que preservar a ferro e fogo um conjunto de crenças é a única forma de proteger a própria fé das ameaças de um mundo em que se pensa e age livremente e cujas luzes são a ciência e a razão.

É nesse erro que a igreja católica cai quando se agarra com unhas e dentes à posição antiaborto, baseada no “não matarás”, embora seja legímo que tenha uma posição antiaborto.

Talvez temendo que um de seus dogmas e principais bandeiras fossem colocados em xeque num caso de repercussão nacional, a igreja reagiu de forma monstruosa.

Intolerante, baniu mãe e médicos por terem interrompido uma gravidez por estupro.

Cega, não viu que a gestante era uma criança de nove anos, abusada sexualmente pelo padrasto desde os seis e que, segundo os médicos e qualquer resquício de bom-senso, não tinha condições físicas para gerar gêmeos.

“Tenho pena do nosso arcebispo, que não conseguiu ser misericordioso com o sofrimento de uma criança inocente, desnutrida, franzina, em risco de vida”, disse à Folha de S. Paulo o médico Rivaldo Mendes de Albuquerque, um dos responsáveis pelo aborto.

Talvez Rivaldo, ele próprio um católico praticante, não tivesse se atentado para o fato de que fundamentalistas religiosos têm enorme dificuldade em descer ao nível das pessoas, onde os dramas e sofrimentos se desenvolvem.

Para eles, existem o preto e o branco, o certo e o errado, mesmo havendo situações em que não há limites precisos ou, simplesmente, não há limites.

Sua única referência de vida é o texto.

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2 Responses to “Uma reação desumana”

  1. 1 Kazé

    Temos que entender que o pensamento retrógrado da ICAR (Igreja Católica Apostólica Romana) e de outras igrejas não servem ao princípio do religare, mas aos propósitos de controle das massas.
    Deus, infelizmente, está em outro lugar!

  2. 2 Jhoe

    Oi, mano…

    Que bom que vc tem seu blog! adorei… já sou fã…!

    adoro seus textos e o modo como vc expõe suas ideias… indicarei a outros…

    super bjo!


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