Luto

06out09

Já faz coisa de uma semana, Clarice vem me assombrando. A culpa, a bem da verdade, não é só dela, mas também do Zuenir, e sua Inveja, Mal Secreto, que andam me acompanhando nas andanças de condução pela cidade depois que meu carro foi roubado. No livro, ele conta que Nelson Rodrigues, invejoso confesso e canalha declarado, respirou aliviado no dia em que Guimarães Rosa morreu. O motivo: para ele, era demais conviver com a genialidade do outro.

Salvo o óbvio abismo entre o talento do Nelson e o meu, me identifiquei de imediato. Havia poucos dias, tinha lido uns contos que Clarice escreveu aos 14 anos – época em que eu ainda rabiscava redações pros concursos da escola, no papel almaço frente e verso.

No meu preferido, Clarice promove um encontro entre aquilo que para mim são duas versões de si própria: uma jovem que sente a angústia daqueles que percebem que há algo na vida além do dia-a-dia, do cotidiano, das coisas aparentes (o tal mundo do espírito, como bem definem os pensadores alemães), e uma psicóloga, que procurada pela jovem, tenta convencê-la – mesmo sem acreditar -, de que essa urgência de querer entender, essa inquietação, vai passar, que essa coisa indizível que a garota sente será aplacada pelo tempo ou pelo amor.

Enfim, qualquer coisa que eu diga aqui sobre o conto, será banal. Clarice fala à minha alma. Difícil explicar esse mergulho dentro de mim que é ler Clarice. Talvez por isso, quando leio Clarice, eu me sinta assim, como Nelson tendo que conviver com Guimarães. Simplesmente não dá.

Tenho um amigo, amante dos provérbios, que costuma dizer (se valendo de um ditado, como não poderia deixar de ser): “Não há nada que você queira dizer que alguém já não tenha dito melhor”. Clarice me bota neste ânimo, achando que depois de tudo que ela disse – puta que o pariu! – o que mais há pra se falar?

Por isso essa semana, fiquei lutando pra escrever meu post. Pensei até em publicar um antipost, algo como aquelas plaquinhas de luto, que se põem na porta da venda quando um ente querido falece. “Fechado por motivo de Clarice”.

Achei que poderia soar como falta de zelo aos leitores e desculpa esfarrapada aos colegas do Domínio, que, no mais, iam me retaliar pela quinta-feira vazia. Preferi este relato, um tanto piegas, mas não menos conveniente. Se vierem com represálias pro meu lado, sustento até o fim que sou inocente. A culpa, meus caros, a culpa é de Clarice.

Por Daniela Moreira, publicado em 31 de agosto de 2006, nos porões do Domínio Público.

Anúncios


No Responses Yet to “Luto”

  1. Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: