Sexo nos Trilhos

07out09

 Gerson Freitas Jr.

Praticamente duas horas do dia eu passo dentro do trem que liga Ribeirão Pires ao centro de São Paulo. É mais tempo do que o necessário para que deixemos de nos sensibilizar com cenas, diálogos e situações protagonizadas por pessoas que confortavelmente julgamos não existir. Há alguns dias, para minha surpresa, descobri que pelo menos uma parte de mim não se havia cauterizado para tudo isso.

Em mais uma sonolenta viagem rumo ao trabalho, já entre as estações Luz e Barra Funda, escorado no vão da janela do trem, percebo um casal fazendo sexo em um dos trilhos abandonados. Isso mesmo! Fazendo amor, transando, fodendo mesmo…

Faziam “aquilo” ali, às claras, onze e pouco da manhã, assistidos por algumas centenas de passageiros. Ele deitado sobre o corpo dela, ela com as pernas abertas e abraçadas ao corpo dele, completamente nus sob o céu de brigadeiro daquela indesejada segunda-feira.

Não me ative à reação das pessoas em volta, embora tenha boas razões para pensar que muitas tenham ficado chocadas, moralmente constrangidas. Aquilo era muito diferente do sexo que fartamente se vende na TV, em outdoors ou bancas de jornal, e passava longe de ser objeto de satisfação do voyeurismo digital que tomou conta da nossa vida. Não era um reality show. Era real e, assim, dolorosamente humano. E isso faz toda a diferença.

O que não quer dizer que não houvesse algo de profundamente terno naquela cena, em dois moradores de rua, talvez marido e mulher, talvez namorados ou apenas cúmplices apaixonados de um atentado público ao pudor. Foras da lei!

O que soa até contraditório, pois sexo ainda é (entre outras coisas menos nobres) uma expressão de amor, afeto e carinho. E pessoas não deveriam ser presas por demonstrar amor, afeto e carinho em público. O que apenas se explica pela liberdade com que o sexo caminha entre os campos do profano e sagrado, puro e imundo, terno e lascivo, desejado e recriminado.

Certamente nada disso preocupava aqueles dois amantes, ali deitados sem pressa, sem puderes e, claro, sem um teto que os abrigasse. Se o tivessem, não estariam sobre os trilhos em que caminham milhares de pequenos camundongos e baratas pelo lixo amontoado. Certamente não.

Mas ali faltaram uma casa, um quarto e uma cama, suficientes para transformar aqueles dois vagabundos sem vergonha em pessoas de respeito. Dentro dela, não apenas o sexo, mas a violência, o abuso e a opressão muitas vezes tornam-se “assunto de família”, omitidas da sociedade e do Estado. Fora, tudo fica exposto para o julgamento farisaico das pessoas “de bem”, como a frágil nudez daqueles corpos maltratados, com suas virtudes e pecados, desejos, instintos e necessidades, apenas algumas ali saciadas.

Sem direito à intimidade, expõem-se compulsoriamente aos olhos de todos nos momentos em que nos esconderíamos de Deus se possível. E se eles já tomam banho, alimentam-se e expelem seus excrementos em público, o que impede de fazer sexo onde quer que seja?

São moradores de rua. A rua é sua casa, e nós, meros intrusos. Para ver neles os fragmentos de humanidade que escondemos e de que nos esquivamos por trás dos vidros de nossos carros, sob o teto de nossa casas e sob as vestes de nossa hipocrisia. Para que nos lembrem, ainda que por instantes, quem ainda somos e do que nos fizeram.

Texto publicado em 23 de abril de 2007, nos porões do Domínio Público.

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