Cuba segundo uma cubana

09out09

Ler os relatos de Yoani Sanchez sobre a vida em Cuba me faz pensar por que tanta gente boa no Brasil ainda vê com simpatia, quando não um certo fascínio, o regime da ilha. Aparentemente, democracia e liberdade são valores pouco sólidos por estas bandas, o que seria de se estranhar em um País que já foi tão castigado por uma ditadura – ou não, se levarmos em conta nosso desconhecimento da história. Ou talvez passe pelas cabeças que ditaduras de direita são piores do que ditaduras de esquerda, estas legitimadas pela bandeira do interesse coletivo. Ou, no caso de Cuba, pelos indicadores sociais supostamente acima da média.   

Para quem ainda não conhece, recomendo a leitura: http://www.desdecuba.com/generaciony/

Lábios pintados

Escrito por: yoani.sanchez en Geração Y

A crise econômica em Cuba obrigou-nos a encontrar substitutos para quase tudo, inclusive os cosméticos. Nos anos noventa, a graxa de sapatos foi usada para realçar as pestanas, o detergente para limpeza converteu-se em champú e o vinagre em condicionador. Uma amiga muito humilde sentiu-se aliviada quando descobriu que podia passar um lenço nas paredes – pintadas com cal – e com ele empoar o rosto. O laxante era deixado repousando para que flutuasse o azeite mineral que continha e que se usava como bronzeador.

Numa muda cumplicidade homens e mulheres combinaram desnudarem-se com a luz apagada e assim não revelar os furos e serzidos de sua roupa íntima, que se lavava a noite e secava-se atrás da geladeira para usá-la no outro dia. O mais humilhante foi retornar ao costume, de nossas avós, de lavar os panos absorventes nos dias da menstruação e ficarmos em casa – sentadas no serviço – quando chegava o ciclo lunar.

A partir do outono de 1993 os que queriam parecer bem tiveram a oportunidade de adquirir produtos novos e até de escolher entre várias marcas, porém tinham que ter em sua carteira a moeda do “inimigo”. Assim foi que ao preço de muitos sacrifícios, as fêmeas desta Ilha não se deixaram derrotar em seu desejo de se verem mais bonitas. Com seus lábios pintados e a roupa justa, riem-se daqueles que – nos momentos de maior extremismo – definiam como “frivolidade capitalista” a intenção humana de se enfeitar. Tingir o cabelo de azul, fazer uma tatuagem ou colocar uma argola no umbigo já não é visto como uma debilidade ideológica. Sobre os corpos começaram a surgir os sinais da sedução e da mudança.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

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