Brasil Potência

13out09

A corrupção é o que menos me preocupa na escolha do Rio de Janeiro para sede das Olimpíadas em 2016. No Brasil, quase toda grande obra pública tem problemas com orçamento superfaturado e licitações fraudulentas. Se esse for o impedimento, o Estado deve abster-se também de construir escolas e hospitais.  O que me assusta mesmo é o discurso ufanista, o resgate do “Brasil Potência” dos anos 70.

De um tempo para cá, parece que tudo conspirou para que abandonássemos nosso complexo de vira-latas. Vamos realizar uma Copa do Mundo, descobrimos petróleo, tornamo-nos credores do FMI e assumimos um suposto protagonismo nas negociações internacionais (sem falar que nosso presidente agora é chamado de “o cara” pelo cara). As Olimpíadas são apenas a cereja desse bolo de boas notícias. 

Governos até fazem seu papel ao vender certo otimismo, especialmente quando, como agora, tem boas razões para fazê-lo. Daí o cidadão entrar no barco é outra história.

A Copa do Mundo e as Olimpíadas podem, sim, ser uma boa oportunidade para que o País melhore sua infraestrutura, atraia investimentos e gere empregos. Mas, ao contrário do que propagou o presidente Lula ainda em Copenhague, o Brasil não deixou com isso de ser um país “de segunda classe”.

Este é o país em que 11,5% das crianças de oito e nove anos ainda são analfabetas, onde quase metade das casas não tem tratamento de esgoto e quase 30% sequer faz a coleta, segundo dados do IBGE. Com as Olimpíadas, corremos o risco de aumentar o abismo que existe entre o Brasil potência e esse Brasil subdesenvolvido na pauta das prioridades.

Um exemplo emblemático: com vistas à Copa e às Olimpíadas, o governo federal pretende financiar a construção de um trem-bala, orçado em 20 bilhões de reais, ligando as cidades de São Paulo, Campinas e Rio de Janeiro. Mas parece não haver planos para se financiar, de forma estruturada, um plano de transporte público de massas nas grandes cidades brasileiras.

Na semana passada, as estações de trem que ligam o Rio aos subúrbios e municípios vizinhos transformaram-se em campos de batalha entre passageiros, revoltados com as falhas e a qualidade do serviço oferecido, e a polícia militar. Para os habitantes da Baixada Fluminense, o Brasil potência ainda demora a chegar.

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