Impasse climático

15out09

Não vou ficar surpreso se o encontro do Clima em Copenhague, que vai definir os rumos do combate ao aquecimento global na próxima década, terminar mais ou menos como a Rodada Doha, que há oito anos patina em seu objetivo de reduzir as barreiras do comércio mundial.

No discurso, todos os líderes concordam que a liberalização do comércio é boa e justa. Na prática, ninguém está disposto a cortar subsídios e impostos à importação. Com o clima, pode acontecer a mesma coisa. Todo mundo concorda que é preciso reduzir de forma significativa a emissão dos gases que causam o efeito estufa. Na prática…

Supostamente, apenas os países ricos precisam apresentar metas de corte na emissão de gases até 2020. Assim como no protocolo de Quioto, os países pobres e em desenvolvimento ficariam dispensados de uma meta formal, devendo apenas apresentar medidas que sinalizassem um crescimento menor das emissões.

A lógica é simples: os países industrializados são os grandes responsáveis pelo CO2 acumulado na atmosfera global desde a revolução do século 18. Impedir que os países mais pobres queimem petróleo e carvão seria como impedir que eles se industrializassem e alcançassem o mesmo grau de desenvolvimento e riqueza dos países avançados.

Só que reduzir as emissões custa caro, e os países ricos sabem que, se assumirem a bronca sozinhos, verão muitas de suas indústrias perder competitividade e migrar para outros países onde possam produzir sem restrições. Por isso, exigem que as nações emergentes também assumam metas de corte, ainda que mais tímidas.

Os Estados Unidos foram além. O presidente Barack Obama encaminhou ao Congresso um projeto que prevê a cobrança de taxas sobre a importação de países que não adotarem uma meta equivalente à americana. O texto já passou pela Câmara dos Representantes e agora está nas mãos do Senado. Há quem diga que os demais países ricos podem seguir o mesmo caminho.

Convenhamos, não é bem o clima (desculpem o trocadilho) que se espera de uma reunião destinada a salvar o planeta. O aquecimento global é um negócio que envolve riscos, interesses poderosos e muitas oportunidades de negócio. Basicamente, é disso que vamos falar em dezembro, em Copenhague.

Nesse jogo de interesses, ninguém entra em condições tão privilegiadas quanto o Brasil. É muito provável que nenhum outro país tenha tanto potencial para produzir energia limpa e barata. Ao contrário dos outros países em desenvolvimento, dependentes do carvão e do petróleo, o Brasil tem uma matriz predominantemente renovável. Nossa eletricidade vem das hidrelétricas e das usinas de cana e a maioria dos carros anda com álcool. O Brasil tinha tudo para liderar esse debate, apontar soluções e apresentar-se como tal. Mas dá sinais de que pode perder esse barco.

Até semanas atrás, o País sequer tinha uma proposta para apresentar. Nossa posição era muito parecida com a de China e Índia, para quem a responsabilidade de despoluir o planeta é exclusivamente dos países ricos. Apenas agora, há menos de três meses do encontro, o governo discute um plano: congelar as emissões de CO2 nos níveis de 2005 e diminuir em 80% o desmatamento (as queimadas respondem por quase 90% das nossas emissões, embora não tenhamos um inventário atualizado).

A proposta está longe de ser ambiciosa – queimar um dos maiores patrimônios ambientais da humanidade para exportar madeira e criar gado é mesmo coisa de país subdesenvolvido -, mas enfrenta resistências dentro do governo.

A ala desenvolvimentista, liderada pela chefe da Casa Civil e presidenciável Dilma Rousseff, não quer se comprometer com uma meta de corte nas emissões de CO2, porque acredita que o País vai crescer a taxas elevadas nos próximos anos. Para essa turma, crescimento econômico e preservação do meio ambiente são incompátiveis. O risco é o Brasil, que ficou bem para trás na era do pétróleo, segurar a lanterna também na era do baixo carbono.

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