Lula e a decadência do PT

19out09

O primeiro programa de TV da campanha que conduziu Lula à presidência em 2002 deixava muito claro seu propósito: assegurar ao eleitor que Lula não governaria sozinho.  Em um amplo escritório, dezenas de personalidades do Partido dos Trabalhadores reúnem-se em torno de mesas onde analisam dados, discutem e, ao final, entregam a Lula um programa de governo. Para quem ainda desconfiava da capacidade do candidato que não tinha diploma superior e malemá falava o português, aquele seria o governo de um partido, seria o governo do PT.

Aquelas eram outros tempos, e o PT gozava de outra fama. Dirceu, Genoíno, Gushiken, Suplicy, Palocci, Mercadante e Benedita da Silva, que aparecem no vídeo aí embaixo, eram quadros então respeitáveis e éticos. Seriam eles o governo de fato. Lula era tão somente o símbolo que, de alguma forma, resumia as aspirações de estudantes, trabalhadores, artistas, ambientalistas e movimentos sociais; era, afinal, o maior símbolo da esquerda no Brasil.

A relação entre Lula e PT era simbiótica, interdependente, mas havia razões para crer que era mais fácil o PT sobreviver sem Lula do que Lula sem o PT. O partido parecia e deveria ser maior do que Lula, e não eram poucos os que achavam que o PT chegaria ao poder apenas no dia em que apresentasse outro candidato. Não custa lembrar que, para concorrer em 2002, Lula sujeitou-se a disputar prévias contra Eduardo Suplicy, que viajava o Brasil a defender sua proposta de Renda Mínima contra o Fome Zero de Lula.

De certa forma, essa ordem se manteve até os primeiros anos do governo, antes de Roberto Jefferson dar a entrevista que derrubou do poder as figuras históricas do PT. Dali em diante, Lula teria de se descolar e seguir sozinho. Se, em 2002, os publicitários ressaltavam o partido por trás do presidente, na campanha da reeleição em 2006, o lema era “deixa o homem trabalhar”. Lula tomou as rédeas do governo, costurou acordos e construiu ele próprio sua nova base de sustentação. E não apenas o fez com surpreendente sucesso, como se fortaleceu a ponto de fagocitar o PT.

O que restou de todo esse processo foi um governo muito mais personalista do que o eleito em 2002. Lula passou a ser o partido de si mesmo, das próprias ideias e objetivos, reforçando sua imagem de pai dos pobres e salvador da Pátria. Já o PT, ofuscado pelo seu presidente da República, limita-se a ocupar seu quinhão nas estruturas do poder enquanto agoniza politicamente, sem projeto, sem identidade e sem o apoio dos setores que o sustentaram desde o início.  O poder desfigurou o Partido dos Trabalhadores, o que é uma pena. Do ponto de vista da organização político-partidária no País, foi um tremendo retrocesso.

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One Response to “Lula e a decadência do PT”

  1. 1 Tatrix

    Gostei!! 😉


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