Apocalipse Now

27out09

A famosa troca de cartas entre o filósofo italiano Umberto Eco e o cardial de Roma Carlo Maria Martini, publicadas na década de 90 pela revista liberal e, posteriormente, compiladas em livro (“Em que crêem os que não crêem”), toca num tema que vem bem a calhar em meio a toda essa discussão sobre aquecimento global: a “obsessão laica pelo novo Apocalipse”.

O Apocalipse da Bíblia Sagrada é o livro em que o apóstolo João conta as revelações que recebeu sobre o fim dos tempos. Nele, invoca imagens pouco agradáveis de tempestades de pedra e fogo, queda de estrelas, mar transformado em sangue e uma temida Besta que surge do abismo para dominar a Terra. Essas imagens alimentaram os medos mais sombrios de sucessivas gerações ao longo dos últimos dois mil anos, especialmente na passagem do primeiro milênio.

Supostamente, esses terrores teriam sido aniquilados pelo alvorecer do Iluminismo ou, pelo menos, circunscritos aos muros da igreja. Contudo, as duas guerras mundiais, a iminência de um conflito nuclear, as novas biotecnologias, a fome de continentes inteiros, o buraco na camada de ozônio, o aquecimento global e o derretimento das calotas polares não apenas reforçaram a ideia de um novo apocalipse, como lhe deram respaldo científico: efetivamente, a existência humana corre perigo.

O curioso é que preferimos lidar com esse medo no plano inconsciente e isso talvez explique as dezenas de filmes de catástrofe que, de tempos em tempos, lotam as salas de cinema. A humanidade parece fascinada pelo próprio fim, o que denuncia seu conformismo cínico em relação ao futuro e que acaba por definir também sua atitude em relação ao presente. Neste, não há espaço para ideologias ou solidariedade; apenas para o consumo.

Curiosamente, a igreja vem se afastando da ideia do armagedom como um evento histórico ou, pelo menos, um evento histórico iminente, relegando-o a um terreno místico, espiritual, de uma outra terra, de um outro tempo. Mesmo as dissidências pentecostais, que até muito pouco tempo atrás anunciavam a volta de Jesus a qualquer instante, parecem hoje muito mais dispostas a aderir ao cristianismo em sua forma mais utilitária: o que se convencionou chamar de teologia da prosperidade.

A ponto de Umberco Eco afirmar que o pensamento do fim dos tempos hoje é mais típico do mundo laico do que do mundo cristão. Talvez se explique pelo fato de que o fim dos tempos não possui o mesmo significado para crentes e não-crentes. Se, para estes, é a inevitável destruição da vida humana – talvez necessária para que o resto do planeta possa sobreviver – para aqueles, é a esperança final de uma nova ordem em que imperem o amor e a justiça e que, por isso mesmo, talvez deva ser apressada. Afinal, é para a “redenção” e a “salvação” que caminha a história dos cristãos.

Toda essa elucubração esconde uma pergunta: existe alguma chance de a humanidade transformar seus temores de um novo apocalipse em comprometimento com as futuras gerações?   

Para o filósofo, Esperança é a palavra-chave para a resposta. Haveria uma noção de esperança e de responsabilidade em relação ao amanhã que poderia ser compartilhada por crentes e não-crentes? Se sim, em que poderia basear-se? Se não, “seria justo que, mesmo sem pensar no fim, aceitássemos que ele se aproxima, nos instalássemos diante da televisão e esperássemos que alguém nos divertisse, enquanto as coisas seguiriam como estão. E ao Diabo os que virão”.

Que venha Copenhague!

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One Response to “Apocalipse Now”

  1. 1 Tatrix

    Não acho que as coisas estão tão no campo das ideias, não mais. Pelo menos no mundo da informática, vários executivos já diminuem o número de máquinas para reduzir o consumo de energia. O mote principal é economizar com a conta de luz, mas serve também para alimentar o conceito de TI Verde, sustentabilidade, meio ambiente, etc. Aos poucos, as coisas acontecem. Começando pelo indivíduo, depois para o coletivo.


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