Cenas do próximo capítulo

24nov09

Embora tenham deixado muita gente empolgada, os ganhos acumulados nas bolsas de valores nos últimos meses são mais um motivo de preocupação do que de comemoração.

Não é preciso ser economista para entender que algo está errado se bancos e especuladores ganham muito dinheiro enquanto empresas quebram e trabalhadores perdem seu emprego. E é exatamente isso que está acontecendo nos Estados Unidos, o epicentro da crise mundial: apesar de dar sinais de recuperação, a maior economia do mundo continua mergulhada na maior recessão desde 1929, o desemprego ultrapassa os 10% e as famílias, inadimplentes, continuam a perder suas casas.

Enquanto isso, Wall Street toca a vida como se não houvesse nada de errado. Os preços de ações e commodities registraram altas expressivas nos últimos meses, e os grandes bancos voltaram a registrar lucros recordes. Mais do que isso: Goldman Sachs, JP Morgan e Morgan Stanley, três gigantes do mercado financeiro que tiveram de ser socorridos pelo governo americano, anunciaram que devem pagar uma quantia recorde, de quase 30 bilhões de dólares, em gratificações para seus executivos – os mesmos que são acusados de arrastar o mundo para a crise com suas apostas arriscadas.

E por que isso acontece? Porque essa foi a solução encontrada pelo governo americano para evitar um estrago ainda maior da economia: o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) zerou a taxa de juros, religou a máquina de imprimir dinheiro e despejou dólares nos bancos. Mas os bancos estão usando esse dinheiro barato para financiar a compra de ativos que perderam valor depois da crise ou aplicar em países com taxas de juros mais altas, como o Brasil.

De um lado, essa política conseguiu evitar que as ações se desintegrassem e o mercado financeiro entrasse em colapso. Do outro, encomendou uma nova crise.

O maior temor é de que o excesso de dinheiro despejado no mercado venha a inflacionar os preços nos próximos anos. Já temendo os efeitos da desvalorização do dólar, grandes investidores passaram a comprar matérias-primas como ouro, petróleo e soja, cujos preços vêm subindo.

Para conter a escalada da inflação, os governos vão ter de elevar juros em algum momento. E quando os custos dos empréstimos subirem, os tomadores vão pensar duas vezes se correm riscos no mercado financeiro ou se deixam seu dinheirinho guardado nos cofres do governo, rendendo um jurinho básico, mas seguro. Nesse momento, pode ser chegar à conclusão de que os mercados estavam inflados artificialmente – ou seja, que as coisas não valiam tanto quanto se pensava. Daí a uma nova crise mundial, precisamos de apenas um espirro.

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