Somos todos culpados

17fev10

A culpa é um dos sentimentos que mais me atormentam. Para mim, tem o mesmo efeito de um soco na boca do estômago: a falta de ar, uma leve tontura e os olhos cheios d’água.  

Na sexta-feira levei mais um desses golpes. Dirigia próximo aos bares da Caetano Álvares, umas dez horas da noite, quando avistei o sinal vermelho. Conforme reduzia a velocidade, percebi uma mulher idosa parada sobre o canteiro central, perto da faixa de pedestre. Aparentava uns sessenta e poucos anos, tinha seus cabelos grisalhos presos num coque desajeitado, usava uma blusa de manga comprida branca e uma saia longa, quase nos pés.

Com o carro parado, aproximou-se de mim lentamente. Carregava panos de prato, uma dezena deles, no antebraço direito. Com a voz baixa, tímida, perguntou se não queria comprar um pano de prato para ajudá-la. Disse que sim, perguntei quanto era. “Três reais”. Pacientemente, começou a estender no vão da janela do carro, um a um, os panos que havia estampado – a maioria com mensagens evangélicas, como “Jesus te ama” e “Deus é fiel” – para que escolhesse um.

Com o sinal verde e os carros da frente começando a se mover, peguei um dos panos, dei-lhe uma nota de cinco reais que tirara apressadamente da carteira e disse que ficasse com o troco. Foi o suficiente para que seu semblante triste e carregado se transformasse, ainda que por um breve instante: “Meu filho, Deus te abençoe! Muito Obrigado”. Parti dali arrasado, o coração partido, e levei algumas horas para me recuperar da sensação descrita logo no início.

Sensibilizar-me com idosos e crianças perambulando pelos faróis não é algo que, por força da convivência, me aconteça todos os dias. As mazelas estão por toda parte, para onde quer que se olhe em uma cidade como São Paulo. Com o tempo, desenvolvemos a habilidade de tolerá-las e até, se possível, ignorá-las, como a parte da paisagem urbana a ser arrastada para debaixo do tapete. Afinal, a vida segue…

Talvez isso explique o sentimento de culpa quando, por uma força maior, o contato direto é inevitável. Somos capazes de assistir ao sofrimento da guerra e da miséria pela TV com a mesma indiferença com que mascamos um chiclete, sem que isso nos incomode além do suficiente para que, quando tanto, mudemos de canal. Por outro lado, quando conseguimos identificar no outro os fragmentos de humanidade que nos torna iguais, quando conseguimos nos enxergar através do próximo que abandonamos à própria sorte, o impacto pode ser devastador.

E por que haveria de ser diferente? A injustiça é uma via de mão dupla. A “mão invisível” que a uns dá o que de outros tira é perversa com quem ousa questioná-la, e não pensa duas vezes para lembrá-lo acerca do sofrimento alheio: “VOCÊ TAMBÉM É CULPADO.”

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