Um pequeno adendo sobre a Páscoa

05abr10

Antes de qualquer coisa, vale a pena contextualizar.

A Páscoa é uma celebração originalmente judaica. Lembra a passagem do povo hebreu para a liberdade da Terra Prometida após quase 500 anos de escravidão no Egito. Vários séculos mais tarde, a páscoa foi adotada pelos cristãos como a data em que se comemora a ressurreição de Cristo – sua pessach da morte para a vida.

Apenas depois vêm os ovos, os coelhos, o chocolate, a mercantilização e o esvaziamento do acontecimento do ponto de vista de seu significado tradicional.

Voltando à páscoa cristã.

A ressurreição do Filho de Deus é o ponto alto da narrativa sagrada. Ela consagra o sucesso de uma empreitada que tinha por objetivo resgatar o homem caído no Éden e reconciliá-lo com seu Criador.

A ressurreição e a ascensão de Cristo aos céus também colocam um ponto final na história que conta os 33 anos de convivência entre a humanidade e seu criador encarnado.

Para o brilhante Paulo Brabo, em sua Bacia das Almas, a ascensão de Cristo implica em uma dramática separação entre o Jesus Terreno e o Cristo Extraterrestre, entre o errante filho de marceneiro, crucificado como criminoso, e o Rei da Glória, sentado à direita do Trono de Deus.

Não resta qualquer dúvida de que o cristianismo institucionalizado abraçou o segundo em detrimento do primeiro, e aí começa o problema.

O Jesus de pés empoeirados, que contava histórias prosaicas, andava com gente de reputação duvidosa, perdoava mulheres adúlteras e implicava com líderes religiosos não tem muito espaço nas igrejas cristãs. Nesses lugares, o Cristo metafísico, poderoso, capaz remover montanhas em favor dos que o seguem é quem arrebanha mais seguidores.

Ou seja, a maioria dos que dizem seguir Jesus Cristo não está nem um pouco interessada no que Ele fez e ensinou durante sua experiência terrena, mas em sua transcendentalidade. Para esses, os passos de Cristo entre seu nascimento e sua morte na cruz apenas adorna o que realmente importa na narrativa.

(A notícia de que jogadores evangélicos se recusaram a distribuir ovos de páscoa para crianças com paralisia cerebral de um lar espírita apenas atesta esse fato.)

Podem-se discutir os fatores que levaram a essa escolha.

Num certo sentido, é possível que a dificuldade em abraçar o Jesus terreno deva-se à nossa dificuldade histórica de assumir a própria carne, sempre relegada a uma condição de inferioridade em relação ao espírito.

De fato, não é simples aceitar que Deus tenha se submetido ao (e se afirmado tal como) corpo humano, com todas as suas limitações e constrangimentos, sujeito ao cansaço, ao suor, à fome e à sede, ao urinar e defecar, ao desejo e à frustração – para tanto, é preciso crer que Cristo representa não apenas o elo que diviniza o homem, mas a humanização do próprio Deus.

Mas não seria nenhuma maldade observar que a escolha pelo Cristo Extraterrestre, em total detrimento do Jesus terreno, atente a todas as conveniências de quem pretende se colocar como legítimo intermediário da divindade, estabelecendo relações de poder com quem busca seus favores. Tema para outra conversa…

Por uma razão ou por outra, a ressurreição de Jesus Cristo, limitada em si, nos diz apenas que um homem morreu e voltou à vida – não sendo o primeiro a gozar de tal experiência na narrativa bíblica. Logo, sem que se voltem os olhos para o Cristo em vida, a Páscoa cristã é uma mensagem vazia.

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2 Responses to “Um pequeno adendo sobre a Páscoa”

  1. 1 Levi

    Boa Gerson,

    E esse vazio e esvaziamento da Páscoa é que amamenta os Meninos de uma VILA que insistimos em chamar de Igreja.

    abraços meu camarada….
    Na jornada

    Levi Araújo

  2. 2 MSilva

    Opa, gostaria de te convidar para participar de uma rede de conteúdo, se tiver interesse me adiciona no msn smatosjr@gmail.com ou me manda um email. Abraços Junior


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