Hillary, Serra e os tabus do mercado

13maio10

Hillary Clinton, atual secretária de Estado dos Estados Unidos, deu ontem uma declaração curiosa sobre a economia brasileira.

Durante a Conferência das Américas, em Washington, disse que a elevada carga de impostos no Brasil é um dos fatores que contribuíram para acelerar o crescimento da economia no Brasil.

Disse Hillary: “Se olharmos para a relação entre arrecadação e PIB [a soma dos produtos e serviços produzidos] no Brasil, é uma das mais altas do mundo. Não é por acaso que o Brasil está crescendo e que está começando a reduzir as desigualdades em sua sociedade. E é uma sociedade grande e complexa. Mas eles estão fazendo progressos”.

A ex-primeira dama foi além e revelou ter conversado com os chefes de Estado do continente sobre a necessidade de aumentar a arrecadação de seus governos.

Segundo consta, a relação entre impostos e PIB nos países da região está entre as mais baixas do mundo.

Para Hillary, o modelo é “insustentável”.

Não tenho lá muita condição de fazer uma análise crítica da tese de Clinton.

O senso comum, que muitas vezes erra redondamente, diz que cargas tributárias elevadas são em si um entrave para o crescimento. Tenho razões para duvidar.

De todo modo, é divertido ver gente do próprio establishment questionar esses tabus do mercado.

Na segunda-feira, o presidenciável José Serra perdeu as estribeiras com a jornalista Miriam Leitão quando questionado sobre seu comprometimento com um desses tabus: a autonomia do Banco Central.

O receituário neoliberal, empurrado goela abaixo dos países em desenvolvimento, prega (ou exige?) que os bancos centrais sejam independentes dos governos eleitos para decidir sobre as taxas de juros e os níveis de câmbio adequados ao País.

O modelo parte do pressuposto que presidentes e ministros são agentes com motivações políticas, muitas vezes populistas, e, portanto, inábeis para conduzir uma política monetária “responsável” ou impopular.

Logo, a tarefa deveria ser deixada para um grupo de pessoas alinhadas com a lógica dos mercados, capazes de tomar decisões “técnicas”, apolíticas e, portanto, indiferentes a qualquer tipo de pressão ou questionamento.

A verdade absoluta é que os BCs não podem sofrer qualquer tipo de intervenção ou questionamentos de quem governa.

Serra, aparentemente, discorda:

“O Banco Central não é a Santa Sé. Você acha, sinceramente, que o Banco Central nunca erra? Tenha paciência. (…) De repente, monta-se um grupo que é acima do bem e do mal, o dono da verdade (…) qualquer criticazinha já vem algum jornalista, já vem outro, ficam nervozinhos por causa disso. Não é assim”.

Disse ainda: “Você vê o Banco Central errando e fala: ‘Não, eu não posso falar porque são sacerdotes, eles têm algum talento, alguma coisa divina, mesmo sem terem sido eleitos, alguma coisa divina, alguma coisa secreta, tal que você não pode nem falar: Olha, pessoal, vocês estão errados’. Ah, tenha paciência”.

Se a crítica tivesse vindo do Plínio de Arruda Sampaio ou de algum dinossauro da esquerda, tudo bem.

Esse pessoal sempre foi pródigo nesse tipo de bravata contra o capitalismo financeiro.

Mas quem sou eu para questionar um tucano?

Anúncios


No Responses Yet to “Hillary, Serra e os tabus do mercado”

  1. Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: