Capitalismo selvagem

08jun10

Meu professor de história do capitalismo na PUC costuma dizer que não existe capitalista bom ou ruim. Para ele, o que muda é apenas o grau de perversidade de cada um.

A onda de suicídios entre empregados chineses da Foxconn, empresa que fabrica o Ipod e o Iphone, entre outras maravilhas da Apple, parece confirmar a tese.

Por trás do mundo encantado de Steve Jobs e de todo papo furado sobre a “nova economia” existe uma realidade não muito diferente daquela que consagrou o velho capitalismo industrial, que é a (super)exploração do trabalho humano.

A Foxconn é acusada de impor condições de trabalho desumanas a seus quase 800 mil funcionários na China.

A China foi a grande salvação da lavoura capitalista nos últimos anos justamente porque deflacionou os custos com mão-de-obra no mundo.

Ao abusar dos salários baixos e das longas jornadas de trabalho, o país conseguiu produzir mercadorias mais baratas para os consumidores do Ocidente ao mesmo tempo em que assegurou lucros maiores para as corporações.

Daí a razão por que ninguém parece lá muito preocupado com a situação chinesa.

Alguns comentários de leitores publicados no site do New York Times, aliás, deixam isso muito claro.

Um deles, postado no dia 26, afirmava: “Não me importo [com os suicídios]. Comprei meu IPhone (ótimo preço!) e estou de olho naquele iPad”.

Quando leio isso, sou obrigado a refletir outra conclusão do meu professor – a de que o capitalismo piorou o ser humano.

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2 Responses to “Capitalismo selvagem”

  1. 1 Tatrix

    Sabe qual é o problema da Foxconn e do capitalismo??? Falta um RH estratégico. he eh eh eheh

  2. 2 Paco

    É cara, seu professor tem razão, com toda a ironia do comentário. A coisa, no fundo, é um câncer mesmo, uma serpente que come o próprio rabo, e não sou eu falando, já dizia o sábio John Maynard que “temos que salvar o capitalismo de si mesmo” (referia-se à depressão dos anos 1930). Bom, só que essa coisa gera e concentra recurso pra caramba e estratégico pra caramba na mão da respectiva elite. O resultado é praticamente inevitável. Tb não sou eu falando, isso é dedução direta do Weber. E falando na China, lá no final, a equação me parece o seguinte: enqto eles tiverem êxodo rural pra segurar os níveis salariais na base e seu trilhão e meio de reservas em US$ – daqui a pouco terão mais poder sobre o dólar que os próprios americanos… – pra forçar o câmbio pra baixo, mesmo com exportações massivas, representando mais de 1/3 do PIB (este ano se tornaram o maior exportador global bruto)… e um sist. político monolítico, claro, que escravize seus funcionários… eles têm gordura suficiente pra queimar e levar adiante o processo de desindustrialização no resto do mundo. Eles estão “emulando” uma doença holandesa em escala global com isso. E ao mesmo tempo, com taxas de investimento em torno de 40% do seu PIBzinho de 8 tri, estão passando por uma rápida gradação tecnológica. Há 15 anos, tranqueiras sem qualidade eram feitas na China. Hj, tranqueiras de qualidade TAMBÉM são feitas na China. Viu a capa da Exame de 2 semanas atrás, de que os chinas estão invadindo? Eles estão loucos pra investir aqui, na infra-estrutura. Só estão esperando o br parir seu marco regulatório. O negócio deles é entrar com participação no agronegócio, minérios e petróleo (e energia tb, provavelmente). Assim, garantem que ficaremos na sua sombra pelo resto do novo século. O séc. XXI já é deles, assim como o XX foi americano. Ainda mais com a capacidade de inovação da Rússia (sim, estou sendo sarcástico), o dinamismo brasileiro e as limitações burocráticas, de infra-estrutura e organizacionais que vão colocar um teto no cresc. indiano antes do chinês (pra não falar na lentidão típica das transformações numa sociedade pluralista como a Índia em contraste com a centralização dinâmica do capitalismo de estado chinês). O México ainda tem que se recuperar e não sei mto sobre a Indonésia, pra falar a verdade, pra saber qdo eles entram no time do BRIC pra causar uma mutação na composição atual. E o Paquistão ainda tem tensões internas demais pra se estabilizar e começar a produzir e aproveitar a demanda dos seus 160 milhões para alavancar o próprio crescimento…
    Pronto, já falei bastante…

    P.S.: Caro Gerson, achei extraordinária tua reportagem sobre o agronegócio na Carta Capital, mês passado. Parabéns!


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