Sobre a morte e o tempo

07jul10

Há alguns dias passei pela experiência de ver uma pessoa morrer.

Aguardava meu voo em Congonhas quando um homem de cinquenta e poucos anos sofreu um infarto fulminante a poucos metros de onde estava.

De nada adiantaram os trabalhos de salvamento, as massagens cardíacas, a respiração artificial, as injeções de insulina e os choques do desfibrilador. Para aquele homem, a jornada encerrava-se ali, na sala de embarque de um aeroporto, com dezenas de testemunhas em volta.

Difícil medir o impacto que uma experiência como essa tem sobre cada pessoa, mas sem dúvida ela diz muito sobre a fragilidade do corpo humano e a brevidade da vida.

Diante da frenética batalha dos paramédicos e de toda comoção em volta deles, me surpreendi observando o relógio que aquele homem usava no pulso esquerdo.

Pois ele próprio não mais vivia, mas a pequena engrenagem que carregava presa ao corpo continuava a mover os ponteiros e a marcar o tempo, como se chamasse a atenção para seu fôlego inesgotável.

E me pus a pensar em como pautamos nossa vida pelo tempo, de modo que tempo e vida parecem duas coisas indistintas e indissociáveis.

Adquirimos o péssimo hábito de contar nossos dias e anos, e de planejar e executar tarefas de modo a respeitar os caprichos do relógio.

Observei então como, um a um, os demais passageiros começaram a se retirar dali e a se dirigir para seus embarques. Após uma breve interrupção, retomavam suas rotinas, como eu haveria de fazer em alguns instantes.

A máquina humana ali estendida no chão havia parado definitivamente; as engrenagens do tempo, não.

Pequena é a parte da vida que vivemos. Pois todo o restante não é vida, mas tempo
Sêneca

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10 Responses to “Sobre a morte e o tempo”

  1. 1 André Lachini

    É Gerson, já passei por umas experiências semelhantes e elas nos levam a refletir sobre a brevidade de tudo, inclusive das nossas vidas, de nós os que ficamos. Cada um tem o seu tempo e não sabemos o quanto nos foi dado.

  2. Gerson, prazeirão conhecer seu blog.
    Quanto à este post me fez lembrar de uma entrevista, que li em uma revista, com Michael Flocker, autor do livro “Manual do Hedonista”: “As pessoas passam a vida querendo ver a conta do banco crescer e esquecem que a vida está acontecendo agora, não daqui a dez anos ou quando se aposentarem. Vivem conectadas com o mundo, mas não consigo mesmas. Simplesmente esquecem de viver”.

    Abraço.

  3. 3 Claudia Tozetto

    Oi Gerson,
    bélissimo texto!!!
    Beijão!

  4. 4 Claudia Tozetto

    Oi Gerson,
    belíssimo texto!!
    Beijão!

  5. 5 Joelma

    Meu irmão,
    Adorei. Vc é fantástico. Parabéns.

  6. 6 Eduardo

    É uma coisa muito interessante para se refletir. Será a coisa mais sábia nós contarmos nossas tarefas pelo relógio? Contar nossos momentos de prazer ou de sofrimento?

  7. Excelente post. Tenho um blogger ao qual também compartilho meus desabafos. http://www.madrugadacarinho.com.br.

    Paz!

  8. 8 Tati

    Oi, meu amor! Parabens pelo texto. Muito bonito.
    Fica bem, tá?
    Beijos!

  9. 9 wagner calderano

    Caro amigo Gerson!!!
    Saudades sua cara!!! Parabens pelo texto. É uma bela reflexao sobre a brevidade da vida!!!
    Abracao

    Wagner

  10. 10 Jessica doEsp

    Pós leitura deste, lembrei do anteriormente lido: MEDO
    Minha pequena massa cinzenta desenhou as duas ilustrações…
    Mas a reflexão que me detem, sou carregado ou carrego o tempo?
    Que (IN) feliz resposta!!!
    Bjus meu primo.


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