O vídeo de Paschoal Piragine Jr.

10set10

Ainda não sei se o pastor Paschoal Piragine Jr. realmente acredita no que diz ou se faz campanha política. De todo modo, precisa ser contestado.

Em uma democracia, pessoas e instituições têm liberdade para manifestar suas opiniões, quaisquer que sejam.

É legítimo, portanto, que um religioso se posicione em relação a temas como a união civil entre homossexuais e o aborto. Contra ou a favor.

Também lhe é assegurado o direito de pedir voto a quem se compromete com suas demandas, e mesmo recomendar que não se vote em partidos e pessoas identificados com outros pleitos. Faz parte do jogo.

Contudo, é profundamente lamentável o conteúdo da fala e do vídeo apresentado por Piragini Jr, visto mais de 700 mil vezes no You Tube.

Para demarcar sua posição em relação ao Partido dos Trabalhadores, o pastor da 1ª. Igreja Batista de Curitiba apela para um discurso fascista.

O vídeo, narrado em tom dramático e pontuado por imagens fortes, alimenta a percepção do outro como ameaça, o que apenas faz incitar o ódio contra um determinado grupo.

Que relação há entre a união civil entre pessoas do mesmo sexo, a violência doméstica, o divórcio, o infanticídio e a pedofilia?

O vídeo trata essas questões como variações do mesmo tema, frutos da uma mesma orquestração contra os valores da família.

Mas não foi a violência doméstica um problema ainda mais grave no passado, característica de um período em que o “núcleo familiar” era muito mais sólido?

Não foi uma lei aprovada justamente durante o governo Lula o primeiro esforço de Estado no sentido de reprimir essa “iniquidade” contra as mulheres?

Não é de uma deputada petista o projeto, apoiado pelo governo, que proíbe qualquer forma de punição corporal a crianças e adolescentes?

Não tramita no Congresso outra proposta que transforma a pedofilia em crime hediondo?

Como então afirmar que o partido do governo “fechou questão” a favor “dessas coisas”?

Piragine mais confunde do que esclarece, e este é o grande mérito de sua apresentação.

Aborda com superficialidade, preconceitos e graves maniqueísmos assuntos que exigem um debate maduro e uma maior compreensão do mundo e do sistema político em que vivemos.

No mais, resta lamentar essa obsessão homofóbica de amplos setores da igreja evangélica e sua estarrecedora indiferença diante de questões muito mais sérias do ponto de vista da integridade humana.

Surpreende que a igreja não se mobilize da mesma forma para alertar contra nossa tragédia educacional, que forma milhões de analfabetos funcionais condenados à escravidão.

Que não denuncie um modelo econômico perverso, que alimenta injustiças, perpetua a pobreza e destrói o planeta.

Que não se sensibilize com o fato de famílias inteiras viverem em barracos insalubres, em meio ao lixo e ao esgoto.

Que não se indigne com a corrupção e a mentira, onde quer que estejam.

Que não faça o menor esforço para humanizar as relações numa sociedade cada vez menos solidária.

Afinal, do que se trata o cristianismo?

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