A vitória de um símbolo

12nov10

Outro dia o senador Álvaro Dias se pôs a cobrar no twitter “medidas para reduzir a prevalência da mistificação, emoção, ficção e imaginário sobre a realidade nas campanhas eleitorais”.

Referia-se ao papel que Lula teve na vitória de Dilma Rousseff, no último dia 31. Para o ex-quase vice da chapa de José Serra, o carisma do presidente decidiu a eleição.

Luiz Inácio Lula da Silva é um mito que a análise fria e econométrica dos fatos poderia desconstruir – ao menos na cabeça dos tucanos, que sequer se atreveram a tentar.

Dias se esquece porém que, em política, quase tudo é objeto de mistificação. Sua narrativa e seus personagens se constroem no imaginário popular, que pode ser mais ou menos conectado com a realidade.

Antes de qualquer outra coisa, votamos em símbolos.

Lula, a despeito de seus méritos e habilidades, ou mesmo de seus defeitos, conseguiu personificar o momento virtuoso do Brasil e da maioria dos brasileiros. E Dilma Rousseff, sua ungida, consagrou-se signo de um processo contínuo e positivo de transformação conduzida pelas mãos do governo.

Ao contrário do que a ilusão racional dos tucanos quer fazer crer, José Serra também se apresentou ao eleitorado como um mito.

Serra tinha “mais biografia”, era o “mais preparado” e, ao contrário de Dilma, era “do bem” – ponto alto da mistificação tucana.

Se apresentou como ponto de encontro das aspirações dos meritocratas paulistas – mesmo quando fez promessas que, na boca de Dilma, seriam consideradas paternalistas.

O problema é que a ideia de meritocracia alimenta os preconceitos e a intolerância enraizados na cabeça de muitos de seus simpatizantes – ao menos, dos trogloditas e idiotas de plantão.

A vergonhosa onda de protestos de paulistas contra nordestinos na internet após a vitória de Dilma é um exemplo disso.

Serra acabou tragado pelo monstro que criou. Acabou a campanha associado ao reacionarismo, à intolerância e ao moralismo religioso – a expressão mais caricata da direita.

Não me parece ser um retrato fiel de José Serra que, na prática, guarda mais semelhanças do que diferenças em relação a Dilma Rousseff.

Mas isso pouco importa. Ou importa muito menos do que o conjunto de ideias, valores e aspirações a que cada um – voluntária ou involuntariamente – estava associado.

Deste ponto de vista, os brasileiros deram um recado que só pode ser comemorado.

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One Response to “A vitória de um símbolo”

  1. 1 Tatrix

    Descobri, graças ao livro Mujeres y su exitos, porque política me atrae pouco. Do jeito como ela é debatida, só existe certo-errado, esquerda-direita, bom-mau. É um tipo de pensamento que incomoda as mulheres, que sabem que poucas coisas na vida são tão objetivas como sim-não. Sempre há um contraponto.


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