A revolução será tuitada. Ou não

02fev11

Os entusiastas da internet cometem um erro um tanto quanto infantil quando se referem aos últimos eventos no Egito e no mundo árabe como a “revolução das redes sociais”.

É claro que o avanço das telecomunicações abriu possibilidades fascinantes e virtualmente infinitas de comunicação, e que ferramentas como o Twitter e o Facebook ajudaram, com ressalvas, a democratizar o acesso à informação.

Mas também é verdade que as mais importantes revoluções da história dispensaram esse recurso.  A Bastilha caiu, em 1789, sem que nenhum celular fosse usado.

Mais do que isso, a Revolução Francesa mudou o mundo muito antes que Mark Zuckerberg pleiteasse tal feito.

Essa constatação, por si só, joga por terra essa aparente imprescindibilidade da internet nos acontecimentos recentes. Convenhamos, um protesto com 1 milhão de manifestantes não chega a ser algo inédito.

O fato de os revoltados usarem o Twitter para se comunicar me parece um detalhe mais exótico do que necessariamente crucial – embora não lhe negue algum grau de relevância. A internet é um meio poderosíssimo, mas ainda é um meio.

O que muda, talvez de modo mais decisivo, é a forma como interagimos com os acontecimentos. De certo modo, a rede social fez com que muita gente se sentisse partícipe da revolução, o que não passa de um fetiche.

Outros acreditam ainda numa inversão do raciocínio acima: a de que os egípcios é que participam da nossa revolução. “Veja só aquela gente lá longe usando o ‘nosso’ brinquedinho para se libertar da tirania!”

De repente, as trocas de mensagens eletrônicas se tornam mais importantes que seu conteúdo – afinal, por que mesmo os egípcios estão lutando?

Assim, despolitizou-se a revolução. O que está em evidência não é mais a tirania, a fome, a opressão, a luta de gente desesperada por condições humanas de vida e participação, mas o encantamento com as possibilidades do mundo virtual. Para todos os efeitos, o Facebook vai salvar o mundo.

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One Response to “A revolução será tuitada. Ou não”

  1. 1 Vinicius Cherobino

    Concordo, Gersão. E, fazendo isso, vc simplifica toda a estrutura da internet. Ela é libertária e pronto. Não se fala q são empresas, empresas com sede nos EUA, empresas q – na maioria – contribuiram com as ditaduras.

    Vc viu o livro do Morozov? Não tem versão em pt, mas tem o podcast dele na LSE (http://richmedia.lse.ac.uk/publicLecturesAndEvents/20110119_1830_theNetDelusion.mp3) sobre como as ferramentas sociais são usadas – e muito bem – pelas mesmas ditaduras para combater os dissidentes.

    E sem contar q, especialmente nos países árabes, eles acabam vendo Twitter, FB como um braço do departamento de estado dos EUA.

    Essa história da internet meio como campo dos sonhos, “construa (as ferramentas) e eles (a democracia) virão”, é uma falácia e meio perigosa.

    O mais legal da briga do Egito, da revolução democratizante via twitter e afins, é q há uma possibilidade grande de quem assumir o poder ser muçulmano radical. É por isso q os EUA tão pisando em ovos… Revolução do povo, igualdade, maravilha e twitter para terminar perdendo o aliado naquele pedaço de terra? Vai ser complicado. É aguardar os próximos capítulos.


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