Caça às bruxas

04abr11

A enxurrada de críticas aos deputados Jair Bolsonaro e Marco Feliciano, pelas declarações que fizeram na semana passada, merece algumas considerações.

Ninguém em sã consciência espera qualquer coisa menos que o repúdio aos boçais. O achincalhamento público de que foram vítimas foi mais do que merecido.

Menos pelas posições, em si, lastimáveis, do que pelo despreparo intelectual. Afinal, a homofobia ofende meus princípios, mas sustentar que a África é miserável devido a uma maldição dos tempos de Noé ofende a minha inteligência.

Mas começo a me preocupar quando a coisa descamba para a caça às bruxas. É muito tentador pedir a cassação de Bolsonaro e Feliciano.

E, para muitos, desejável que indivíduos como eles jamais tivessem voz – a ponto de haver até quem cobrasse alguma punição ao CQC por ter dado espaço a Bolsonaro.

A democracia impõe um fardo realmente incômodo: pressupõe a convivência com gente que você não tolera.

Honestamente, preferiria não ter de ouvir fundamentalistas, boçais, retrógrados ou fóbicos de qualquer natureza. Mas não é este um preço a se pagar pela democracia?  Mas algumas pessoas acreditam que seus valores, sendo nobres, devem prevalecer ainda que à força – uma espécie de ditadura dos bons. 

Não, não estou ao lado dos que acham que a democracia aceita qualquer tipo de ofensa. Algumas posições são simplesmente intoleráveis.

Mas qual é e quem define tal limite?

Não sei se há uma resposta objetiva a essa pergunta.

Mas creio que as sociedades, à medida que evoluem, constroem alguns consensos. Como contra o racismo, para citar o exemplo mais evidente.

Agora, com algum atraso, aos poucos e a duras penas, começa-se a construir um consenso também contra a homofobia – que há de esbarrar em questões mais sensíveis e complexas.

Contudo, este passo ainda não foi dado. Deputados como Bolsonaro e Feliciano ainda têm o respaldo de setores expressivos do eleitorado – os mesmos que conseguiram impor sua agenda na última eleição presidencial. Eles não podem ser ignorados.  

Por isso, cassar os deputados é um erro. Melhor seria chamá-los para o debate e confrontá-los em público. Certas posições precisam ser manifestadas publicamente para que possam ser contestadas também publicamente, até que percam qualquer resquício de legitimidade.

Não é uma tarefa fácil. A democracia leva tempo.

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2 Responses to “Caça às bruxas”

  1. 1 elizeu silva

    Ora, se a liberdade de expressão faz parte de uma democracia sadia, entao, porque taxar de homofobia aqueles que falam contra práticas homossexuais? Não me considero homofóbico ou racista. Sou pastor de uma igreja de maioria negra (79%). Ainda creio que Deus ama o pecador, mas teve de abandonar Jesus na cruz por causa dos pecados de todos nós jogado nos seus ombros. Deus ama TODOS, incluindo homossexuais. Amo-os e quero vê-lo salvos e convertidos, pois a verdadeira salvação tem de produzir mudança de caráter e mudança de vida. Creio que a Bíblia é muito clara ao dizer que qualquer pessoa que pratica o pecado, inclusive o sexo entre duas pessoas do mesmo gênero, não verá o Reino de Deus, mas está condenado ao inferno. Parece simplista mas não vejo outra forma de interpretar o que a Bíblia diz. Não me considero homofóbico e não advogo uma caça às bruxas, muito pelo contrário. Oro por alguns que conheço, inclusive um sobrinho que muito amo, mas que é homossexual. Os senhores deputados Feliciano e Bolsonaro foram infelizes nos seus pronunciamentos, tanto no que diz respeito aos africanos como no caso de Bolsonaro. Será que existe uma forma “DEMOCRÁTICA” e aceitável de se expressar sem ser taxado de extremista? Difícil. Como falaste, a democracia leva tempo, e mesmo numa democracia, algumas coisas são totalmente inaceitáveis. Querer matar e perseguir homossexuais, ou mesmo fazer piadas com pessoas por causa da cor da pele, religião e escolha de estilo de vida, é inaceitável. Homofia e racismo são inaceitáveis, pois atacam a pessoa. O desafio maior, no caso da homossualidade, é expressar uma opinião a respeito da pratica homossexual, sem contudo odiar o praticante, pois se assim fizermos estaremos fazendo o que é certo – NA MINHA OPINIÃO . Citei a Bíblia, mas os que não creem nela não estão se lixando para o que ela diz, o que é um direito de qualquer um.
    Elizeu Silva

  2. 2 @GloboNAOmamae

    O senhor (autor) é mais um mal informado. Pare e pense. O que seria realmente a homofobia? Estaria eu sendo homofóbico por discordar da opção sexual de outrem? Aí o senhor me diria: o problema é de cada um, não seu. E eu digo: mas meus princípios falam mais alto e eu tenho o dever de repassá-los aos meus filhos, porque assim acredito. E isso, não é homofobia, como pretendem classificar os legisladores do PL122. Tenho legitimo direito de acreditar que o homem foi feito para mulher, e também o tenho de discordar do contrário. Discuta o texto da lei! Não seja um fantoche! Você está sendo enganado!


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