Sobre a despedida que não vi

08jun11

As chuvas e ventos de ontem à noite derrubaram a luz, e não pude ver um lance sequer da despedida de Ronaldo dos gramados.

Lamentei o fato ainda enquanto caçava, em vão, as velas e fósforos perdidos nas gavetas abarrotadas de velharias. Os celulares foram a única fonte de claridade, enquanto as baterias resistiram.

Lá pelas tantas me conformei com a falta de velas, fósforos e futebol na TV. E concluí que, na verdade, não estava perdendo nada que já não tivesse visto.

Ronaldo despediu-se do futebol há tempos, aos poucos e de modo melancólico.

Ontem deu adeus à Seleção que nunca mais, desde o fiasco de 2006, quis saber do Fenômeno. Terminou um namoro que já estava acabado, por assim dizer.

Logo me pus a pensar na festa pobre armada pela CBF, nas claques, nos elogios ufanistas do amigo Galvão e no próprio Ronaldo, uma caricatura medonha do atleta que foi.

Intuí que a despedida de um dos maiores atacantes dos últimos tempos deve ter sido um evento triste (corrijam-me se estiver errado).

Ronaldo certamente não precisava disso. Mas, talvez convencido pelo marketing da superação – essa coisa gasta de cair e dar a volta por cima, de ser brasileiro e não desistir nunca – passou e muito da hora de parar.

Ao se dispor a jogar com mais de 100 quilos, virou motivo de chacota ou, na melhor das hipóteses, compaixão. 

De repente, me lembrei da genial despedida de seu amigo Zidane que, com um único gesto, em plena final da Copa do Mundo, mandou às favas o mundo do futebol.

Ao dar aquela cabeçada no peito de Materazzi, Zidane ignorou solenemente os interesses que o cercavam, a importância de uma Copa do Mundo, a grana dos anunciantes, os cartolas e sua politicagem, o fair-play da Fifa, as homenagens hipócritas nas semanas subsequentes, o título de melhor do mundo, os elogios do Galvão Bueno e a expectativa de bilhões de espectadores.

Fez o que achou certo e ainda declarou, dias depois, que preferia morrer a pedir desculpas. Isso se chama orgulho.

Foi exatamente o que faltou a Ronaldo.

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