Fundamentalismo secular

10nov11

Uma das piores características associadas à igreja, um ambiente que conheci razoavelmente bem, é a incapacidade de discutir idéias e a intolerância ao debate. Fundamentalistas religiosos resistem a qualquer possibilidade de diálogo, rejeitam questionamentos, rotulam e atacam seus adversários. São incapazes de relativizar, ver em perspectiva, conceber outras visões, leituras e matizes. Para eles, há o certo e o errado, e qualquer coisa que pretenda se colocar entre os dois deve ser imediatamente rechaçada.

O fundamentalismo religioso é compreensível em alguns aspectos. Pode ser visto como estratégia de defesa da fé, do sentimento de unidade e do fervor coletivo, sem os quais uma crença perde poder de mobilização. Trata-se de uma dinâmica interna, circular. Refutável, mas compreensível.

Difícil é entender como esse padrão de comportamento é reproduzido em ambientes que, em oposição às instituições religiosas, deveriam mais ser abertos, arejados, acessíveis e democráticos. Basta ver o tom das últimas grandes discussões que pautaram as redes sociais e a imprensa.

Quer tratemos da invasão dos estudantes à reitoria da USP, da campanha para que Lula se trate no SUS ou dos escândalos de corrupção no governo federal, saltam aos olhos a estridência dos discursos, a polarização das posições, os estigmas e o ódio mútuo no conteúdo das mensagens.

Impossível não haver radicalizações, e não desejá-las até, em um mundo marcado por desigualdades e injustiças intoleráveis. Todo mundo é diferente, e nada mais natural que das diferenças emirjam conflitos. A raiz do radicalismo a que me refiro é outra; é religiosa.

É a necessidade quase desesperada de gente mais ou menos intelectualizada de marcar posição, escolher um lado e pertencer a um grupo que possa ser mobilizado e distinguido em uma época em que os limites entre direita e esquerda, liberalismo e conservadorismo, são muitíssimo menos claros do que nos anos 1960. Vivemos tempos em que tudo se mistura, se confunde e se contradiz.

Daí decorre, imagino, a reação que transforma o simples cumprimento de uma ordem judicial em “ameaça à democracia e à liberdade de opinião” e um estudante flagrado fumando maconha em “ameaça à ordem pública e aos bons costumes”.

O debate perde o prumo e o tempo, desconecta-se da realidade. Ganha quem grita mais alto – e ouve menos. Sem maturidade e, sobretudo, honestidade intelectual, as idéias logo se transformam em dogmas tão rígidos e intocáveis como o nascimento virginal de Cristo para os cristãos. Questioná-las é tarefa para os hereges, e os hereges devem ser apedrejados.

A consequência é que temos, nas nossas catedrais seculares, uma legião de pastores pregando para convertidos, com chances apenas marginais de troca com o mundo exterior (no máximo, algumas conversões de gente em busca de um grupo para se afirmar).

A ordem é: frequente apenas as comunidades, siga apenas as pessoas e leia apenas os autores que ecoem as idéias com as quais você se identifica. Assim não terá o risco de conviver com marxistas que admitam a hipótese de o capitalismo ter produzido incontáveis avanços, eleitores de Lula que reconheçam o legado de FHC ou cristãos dispostos a aceitar a teoria da evolução e a homossexualidade.

Uma opção preguiçosa, mas segura.

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4 Responses to “Fundamentalismo secular”

  1. 1 Ana

    Acho muito interessante como as pessoas se abrem nas redes sociais. Amigos e conhecidos que eu julgava conhecer mostram posições políticas, opiniões e preconceitos que não batem com o discurso montado para o “mundo real”… Nesse pontos, as redes têm sido bem instrutivas, e fascinantes.

  2. 2 Li

    Legal, Gerson, estou bem de acordo. Só penso que os fundamentalistas em questao nao vao ler teu texto, a opçao preguiçosa e segura, sabe? Como podemos contribuir para este debate nao ser tao polarizado?

    Outra coisa: quando você fala “gente mais ou menos intelectualizada”, acho que o problema nao é ser mais ou menos intelectualizado (tenho convicçao de que nao precisa ser intelectual para se debater, ter ideias e opinioes). O que mata é a pretensao de um ser mais intelectual que o outro e desqualificar o discurso de quem nao está acostumado a este mundinho restrito.

  3. Ótimo texto, Gersão, muito bom mesmo. Acho que sintetiza bem o que temos visto nos últimos tempos. Abraços!!

  4. 4 Kazé

    Frequente, siga, leia…
    Turn on, tune in and drop out!


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