Ideologia esvaziada

13dez11

Tudo começou com uma discussão sobre o ex-jogador Sócrates. Um jornalista com décadas de profissão se levanta e lança o argumento que pretende encerrar a questão sobre as razões de sua popularidade: “a simpatia por Sócrates só se justifica por razões puramente ideológicas”, sentenciou. 

Fui obrigado a concordar, mas não digeri o argumento subjacente. Afinal, por que as tais “razões puramente ideológicas” deveriam ser um problema?

“Ideológico” tornou-se um adjetivo desabonador nos dias de hoje, um rótulo rapidamente usado para desqualificar opiniões e pessoas supostamente incapazes de se enquadrar e aceitar a verdade científica, concreta e inalienável das coisas em prol de um conjunto de dogmas qualquer.

A ordem é ser “pragmático”, como se o pragmatismo não fosse, ele próprio, a essência da ideologia hoje hegemônica. De fato, uma das grandes conquistas do pensamento liberal-conservador em sua batalha pelas mentes e corações foi ser capaz de se despir de seu caráter ideológico e se apresentar como uma ordem natural, lógica e neutra.

Uma ordem que está dada desde os primórdios e deve ser preservada, sob o risco de se corromperem instituições tidas como sagradas e se estabelecer o caos. Por isso, quem ousa pregar algum tipo de subversão deve naturalmente ser visto como ameaça.

O objetivo de quem dá as cartas nesse jogo é muito simples: esconder as relações de poder e interesse por trás de questões supostamente “técnicas”, sobretudo aquelas ligadas à gestão da economia.

Só que a lógica da eficiência e da maximização de resultados extrapola os limites econômicos e se faz perceber em qualquer área da vida cotidiana, da literatura à religião ou ao futebol, com maior ou menor intensidade.

Nesse ambiente, o componente estritamente político-ideológico das coisas não se manifesta e, quando o faz, é rechaçado. Por isso movimentos políticos e sociais são frequentemente acusados de “ideologizar” ou “dogmatizar” temas como a exploração da terra, a desigualdade social ou a preservação do meio ambiente.

Não é à toa que na Europa políticos de carreira caiam e deem lugar a burocratas. O argumento, repetido à exaustão, é que a solução para a crise esbarra no “obstáculo político”, ou seja, na necessidade dos governantes democraticamente eleitos de se justificarem perante suas populações por decisões que comprometem o bem-estar e contrariam os interesses da maioria.

Só que toda decisão é política, à medida que pressupõe uma escolha entre quem ganha e quem perde. E a melhor maneira de justificar certas escolhas é fazer uso de um aparato ideológico que não possa ser combatido como tal: o aclamado “embasamento técnico”. Foi o que permitiu que os ricos dos países desenvolvidos fossem privilegiados por políticas tributárias regressivas nas últimas décadas sem despertar convulsões sociais.

O que resta desse esvaziamento ideológico é o desalento da sociedade com a política como instrumento de mediação de poder, o que significa abrir caminho para que interesses econômicos se imponham sem qualquer forma de resistência. Mais do que isso, a sensação de que não resta nada pelo que valha a pena lutar.

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One Response to “Ideologia esvaziada”

  1. 1 Kazé

    Ahhh o pragmatismo…
    É uma pulga obrigando você a coçar, movimento inútil, que não resolve a coceira, mas provoca uma suspensão momentânea da mesma que chega a ser quase um prazer. Exatamente como fazem os pragmáticos membros da sociedade do consumo, num quase prazer entre uma compra e a seguinte, existindo com o propósito singular de continuarem comprando…


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