Pesos e medidas

15out12

Há uma mistura de ingenuidade e cinismo nas celebrações em torno da condenação da cúpula do Partido dos Trabalhadores pelo Supremo Tribunal Federal.

Os adversários do PT, obviamente, têm muito a comemorar com a sentença. Não apenas porque ela macula definitivamente a história de um partido que fez da ética uma de suas principais bandeiras eleitorais, mas, sobretudo, porque expia os pecados de todos os demais.

Basta lembrar que nenhum partido em toda a história republicana teve sua cúpula condenada pela Justiça. O PT será o primeiro. Um argumento forte, é preciso convir.

Trata-se, no entanto, de uma injustiça em termos históricos, exceto para os que realmente acreditam que os petistas inauguraram a corrupção no Brasil, de um lado, e para os interessados em explorar politicamente o factoide, do outro. Ingênuos e cínicos.

Há quem entenda que a condenação dos mensaleiros reflete o processo de amadurecimento das instituições no Brasil e simboliza o fim de uma era em que a impunidade dos que estão no poder é a única certeza.

É um voto de confiança possível. A aplicação da lei da Ficha Limpa nestas eleições, com a impugnação de centenas de candidaturas, favorece tal argumento. Aqui e acolá brotam sinais de que algumas coisas estão mudando para melhor, ainda que timidamente.

Mas é impossível receber tal ideia sem algum grau de ceticismo. São grandes as chances de o julgamento do mensalão ter sido um episódio isolado, excepcional na história brasileira, decisivamente influenciando por uma conjuntura política.

Definitivamente, não corroboro a tese alardeada pelo PT e seus simpatizantes de que José Dirceu e companhia foram vítimas de um julgamento político, sem sustentação técnica. Os crimes por eles praticados parecem suficientemente esclarecidos.

Mas parece evidente que o processo só vingou porque houve um engajamento sem precedentes por parte de setores influentes da sociedade para que isso acontecesse e que tal engajamento parece ser mais o resultado de um luta política do que de um súbito despertar cívico.

É a tese dos “dois pesos, duas medidas”, não minha, mas do próprio presidente do Supremo, Joaquim Barbosa, de quem não me encontro em posição de discordar. Talvez seja a melhor explicação para o fato de apenas o processo do mensalão, entre dezenas de grandes escândalos de corrupção nos últimos 20 anos, ter chegado ao fim.

Os réus do mensalão devem pagar por seus crimes, mas não devem ser os únicos. Parece óbvio, mas muita gente não vê – ou, convenientemente, prefere esconder: a fila no Brasil é um pouco mais extensa.

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