Renovação católica?

14fev13

Independentemente de quem seja o escolhido para ocupar o Trono de São Pedro no lugar de Bento XVI, as chances de uma mudança significativa nos rumos da Igreja Católica no próximo papado são ínfimas. Não há qualquer sinal de que a instituição esteja minimamente inclinada a ouvir os clamores por uma reforma em assuntos como o uso da camisinha, o sexo extraconjugal ou o casamento gay.

Ao contrário do que se costuma afirmar, as razões da decadência católica têm pouco a ver com o conservadorismo da igreja nessas questões. Não me parece que massas de fiéis estejam abandonando a instituição ou constituindo grupos de oposição por discordarem de suas bases teológicas. A crítica ao Vaticano vem principalmente de fora, dos meios seculares, de gente que possivelmente nunca foi a uma missa.

É provável que sua sangria esteja mais relacionada a um processo natural de secularização das sociedades ditas modernas, nas quais o espaço para Deus (qualquer deus) e as coisas ligadas à religião é cada vez mais estreito, do que ao seu conservadorismo propriamente dito.

Vale lembrar que os movimentos neopentecostais emergiram com força em países como o Brasil defendendo (frequentemente, com mais estridência) posições semelhantes às da igreja católica, distinguindo-se muito mais pela forma do que pelo conteúdo da mensagem. É a razão pela qual a renovação carismática, mesmo fiel às orientações do papa, tem obtido algum êxito.

O que se observa nesses meios é uma crescente e notável capacidade de acomodação, por parte dos fieis, das contradições entre as determinações de sua fé e a maneira como efetivamente conduzem a vida, sobretudo na esfera da sexualidade. Para estes, a religião possui uma característica crescentemente auxiliar e utilitária. Vale para as comunidades evangélicas e, ainda mais, para a Igreja Católica (não se imagina que os mais de dois terços de brasileiros que se dizem católicos estejam efetivamente preocupados em seguir a doutrina de Roma).

O que a Igreja Católica pretende, ao colocar a ideia da “defesa da família” no centro da sua mensagem, é representar, aglutinar e legitimar os interesses dos setores conservadores da sociedade, de modo a manter-se politicamente influente no mundo (muito mais do que se se engajasse em questões universais como a paz no Oriente Médio ou o fim da fome na África, mais cristãs em sua essência).

A defesa de um determinado modo de vida, supostamente ameaçado ou relativizado por novas formas de organização familiar, por exemplo, é uma das últimas fronteiras visíveis onde a igreja consegue ser um agente minimamente relevante para um grande número de pessoas, sem o que poderia se esvaziar completamente. Desse ponto de vista, a posição hostil da igreja ao casamento gay é muito mais uma estratégia de sobrevivência do que a causa de seu enfraquecimento.

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