As chuvas e ventos de ontem à noite derrubaram a luz, e não pude ver um lance sequer da despedida de Ronaldo dos gramados.

Lamentei o fato ainda enquanto caçava, em vão, as velas e fósforos perdidos nas gavetas abarrotadas de velharias. Os celulares foram a única fonte de claridade, enquanto as baterias resistiram.

Lá pelas tantas me conformei com a falta de velas, fósforos e futebol na TV. E concluí que, na verdade, não estava perdendo nada que já não tivesse visto.

Ronaldo despediu-se do futebol há tempos, aos poucos e de modo melancólico.

Ontem deu adeus à Seleção que nunca mais, desde o fiasco de 2006, quis saber do Fenômeno. Terminou um namoro que já estava acabado, por assim dizer.

Logo me pus a pensar na festa pobre armada pela CBF, nas claques, nos elogios ufanistas do amigo Galvão e no próprio Ronaldo, uma caricatura medonha do atleta que foi.

Intuí que a despedida de um dos maiores atacantes dos últimos tempos deve ter sido um evento triste (corrijam-me se estiver errado).

Ronaldo certamente não precisava disso. Mas, talvez convencido pelo marketing da superação – essa coisa gasta de cair e dar a volta por cima, de ser brasileiro e não desistir nunca – passou e muito da hora de parar.

Ao se dispor a jogar com mais de 100 quilos, virou motivo de chacota ou, na melhor das hipóteses, compaixão. 

De repente, me lembrei da genial despedida de seu amigo Zidane que, com um único gesto, em plena final da Copa do Mundo, mandou às favas o mundo do futebol.

Ao dar aquela cabeçada no peito de Materazzi, Zidane ignorou solenemente os interesses que o cercavam, a importância de uma Copa do Mundo, a grana dos anunciantes, os cartolas e sua politicagem, o fair-play da Fifa, as homenagens hipócritas nas semanas subsequentes, o título de melhor do mundo, os elogios do Galvão Bueno e a expectativa de bilhões de espectadores.

Fez o que achou certo e ainda declarou, dias depois, que preferia morrer a pedir desculpas. Isso se chama orgulho.

Foi exatamente o que faltou a Ronaldo.


Barack Obama fez na semana passada um interessante discurso sobre a relação de forças entre Estados Unidos, Europa e os países emergentes, especificamente Brasil, China e Índia.

Basicamente, defendeu que, a despeito do forte crescimento de suas economias, nenhum dos neófitos citados está preparado para assumir a liderança desempenhada hoje por norte-americanos e europeus.

“Há quem acredite que tal crescimento virá junto com a decadência inevitável da influência de nossos países no mundo. Há quem diga que essas nações são o futuro e nós, o passado, mas isso está errado. O tempo para nossa liderança é agora”, afirmou Obama.

De fato, ninguém acredita que a China, a desbancar os EUA como maior economia até o fim da década, esteja perto de fazer algo semelhante sob os aspectos político e militar.

Índia e, principalmente, Brasil talvez nunca estejam. 

Ao explicar o porquê, Obama parece falar em particular a nós, brasileiros: “A prosperidade duradoura não vem do que uma nação consome, mas do que produz e de quais investimentos faz em sua gente e infraestrutura.”

Por este raciocínio, o Brasil pode até ser um mercado promissor, mas ainda está longe de ser um país desenvolvido.

Só posso concordar.


Os quase 30

24maio11

Dois dias atrás publiquei aqui o link para a versão brasileira de “I don´t want to grow up”, dos Ramones. Hoje, coloco mais um traço na lousa. Agora, são 29.

A gente lamenta, resmunga, esperneia e ousa até negar, mas crescer é inevitável. Cantar “eu não quero crescer” é um ato de protesto legítimo, mas do qual não se pode esperar muito.

De todo modo, os quase 30 fazem pensar. Você ainda é jovem, sente que tem a vida pela frente e vigor para vivê-la, mas coleciona cada vez mais evidências de que não tem mais 18 anos.

Cada vez mais, assume responsabilidades, lida com problemas e faz escolhas de gente grande. Enfrenta pressões crescentes e uma enorme pressão para não errar. Talvez por isso mesmo, fica mais nostálgico em relação à infância, aos anos de colégio, aos amigos de faculdade.  E, quando tenta revisitá-los, descobre que não estão mais lá.

Ao menos, claro, não da maneira que você se lembrava. Talvez este seja o ponto-chave: as coisas, pessoas e experiências têm um significado particular intrínseco ao tempo em que são vividas. Poucas, pouquíssimas, se eternizam. As demais viram simpáticas peças de museu.

Os quase 30 são um bom momento para sacar isso. De repente, percebe-se que a vida, cavalheira, lhe oferece novos prazeres e possibilidades.

Você descobre que a sorte de um amor tranqüilo, com o tal gosto de fruta mordida, pode ser mais gostoso que muitos arroubos de paixão; que cozinhar um risoto de funghi a dois, saboreando uma boa garrafa de vinho, pode ser mais divertido que o restaurante da moda; que reunir os amigos no domingo à tarde faz mais sentido que espremê-los em alguma balada madrugada a dentro;  e que comprar a sua casa, preciso dizer, dá um orgulho danado!

Aprende que a vida está aí para ser vivida (argh, desculpem o clichê). Mas, sobretudo, que isso tem muito pouco a ver com nunca crescer.


A música é bobinha, despretensiosa mesmo, mas gostosa de ouvir. A versão brasileira de “I don´t want to grow up”, dos Ramones. Dica para relaxar!


As capas de todas as revistas semanais destacam Osama Bin Laden. De modo geral, tentam responder como fica o mundo após a morte daquela que foi a personagem mais importante da última década.

Obviamente o rigor desse tipo de análise se perde em meio à nebulosidade das circunstâncias, tanto da morte quanto da vida do terrorista. Se é que estava vivo, que papel Osama efetivamente exercia quando foi ceifado pelos soldados norte-americanos?

Nos últimos anos, o terrorista se notabilizou sobretudo pela ausência. Foi dado como morto ao menos duas vezes. E não reivindicou a autoria de nenhum atentado importante depois de 11 de setembro de 2001, quando as Torres Gêmeas vieram abaixo.

É provável que seja mais perigoso agora, como mártir, do que fora em vida nos últimos anos, o que já é senso comum. É o suficiente para relativizar a afirmação do presidente Barack Obama de que o mundo ficou mais seguro após o assassinato do saudita. 

Parece mais seguro afirmar que o mundo tenha mesmo é se deteriorado. Não apenas pelas reações que a morte de Bin Laden pode suscitar no mundo islâmico, mas pela forma como os Estados Unidos retrocederam em seu discurso.

Nada tão lamentável quanto a transformação a que Barack Obama se submeteu, com o objetivo de se reconciliar com a América profunda.

O presidente despiu-se de uma retórica conciliatória e iluminista, que lhe garantiu o Nobel da Paz em 2009, para vestir o uniforme de justiceiro texano. Em 2008, era a antítese de Bush Jr., e, por essa razão, esperança de um mundo melhor.

No poder, recrudesceu-se a ponto de não mais se reconhecer no candidato que encantou o mundo. Hoje, o democrata se vende como aquele que cumpriu a missão de seu antecessor: capturar o bandido, vivo ou morto.

Ambos ignoraram sumariamente os tratados internacionais e os direitos humanos para cumprir seus objetivos. Bush ao menos forjou um julgamento para o seu bandido. Obama ordenou uma execução e desapareceu com o corpo.

E, como se não fosse suficiente, manteve viva a ameaça: Bin Laden pode estar morto, mas a Al-Qaeda continua a atentar contra os Estados Unidos. Neste cenário, é impossível concluir que o mundo tenha se tornado um lugar mais seguro.


A enxurrada de críticas aos deputados Jair Bolsonaro e Marco Feliciano, pelas declarações que fizeram na semana passada, merece algumas considerações.

Ninguém em sã consciência espera qualquer coisa menos que o repúdio aos boçais. O achincalhamento público de que foram vítimas foi mais do que merecido.

Menos pelas posições, em si, lastimáveis, do que pelo despreparo intelectual. Afinal, a homofobia ofende meus princípios, mas sustentar que a África é miserável devido a uma maldição dos tempos de Noé ofende a minha inteligência.

Mas começo a me preocupar quando a coisa descamba para a caça às bruxas. É muito tentador pedir a cassação de Bolsonaro e Feliciano.

E, para muitos, desejável que indivíduos como eles jamais tivessem voz – a ponto de haver até quem cobrasse alguma punição ao CQC por ter dado espaço a Bolsonaro.

A democracia impõe um fardo realmente incômodo: pressupõe a convivência com gente que você não tolera.

Honestamente, preferiria não ter de ouvir fundamentalistas, boçais, retrógrados ou fóbicos de qualquer natureza. Mas não é este um preço a se pagar pela democracia?  Mas algumas pessoas acreditam que seus valores, sendo nobres, devem prevalecer ainda que à força – uma espécie de ditadura dos bons. 

Não, não estou ao lado dos que acham que a democracia aceita qualquer tipo de ofensa. Algumas posições são simplesmente intoleráveis.

Mas qual é e quem define tal limite?

Não sei se há uma resposta objetiva a essa pergunta.

Mas creio que as sociedades, à medida que evoluem, constroem alguns consensos. Como contra o racismo, para citar o exemplo mais evidente.

Agora, com algum atraso, aos poucos e a duras penas, começa-se a construir um consenso também contra a homofobia – que há de esbarrar em questões mais sensíveis e complexas.

Contudo, este passo ainda não foi dado. Deputados como Bolsonaro e Feliciano ainda têm o respaldo de setores expressivos do eleitorado – os mesmos que conseguiram impor sua agenda na última eleição presidencial. Eles não podem ser ignorados.  

Por isso, cassar os deputados é um erro. Melhor seria chamá-los para o debate e confrontá-los em público. Certas posições precisam ser manifestadas publicamente para que possam ser contestadas também publicamente, até que percam qualquer resquício de legitimidade.

Não é uma tarefa fácil. A democracia leva tempo.


Os entusiastas da internet cometem um erro um tanto quanto infantil quando se referem aos últimos eventos no Egito e no mundo árabe como a “revolução das redes sociais”.

É claro que o avanço das telecomunicações abriu possibilidades fascinantes e virtualmente infinitas de comunicação, e que ferramentas como o Twitter e o Facebook ajudaram, com ressalvas, a democratizar o acesso à informação.

Mas também é verdade que as mais importantes revoluções da história dispensaram esse recurso.  A Bastilha caiu, em 1789, sem que nenhum celular fosse usado.

Mais do que isso, a Revolução Francesa mudou o mundo muito antes que Mark Zuckerberg pleiteasse tal feito.

Essa constatação, por si só, joga por terra essa aparente imprescindibilidade da internet nos acontecimentos recentes. Convenhamos, um protesto com 1 milhão de manifestantes não chega a ser algo inédito.

O fato de os revoltados usarem o Twitter para se comunicar me parece um detalhe mais exótico do que necessariamente crucial – embora não lhe negue algum grau de relevância. A internet é um meio poderosíssimo, mas ainda é um meio.

O que muda, talvez de modo mais decisivo, é a forma como interagimos com os acontecimentos. De certo modo, a rede social fez com que muita gente se sentisse partícipe da revolução, o que não passa de um fetiche.

Outros acreditam ainda numa inversão do raciocínio acima: a de que os egípcios é que participam da nossa revolução. “Veja só aquela gente lá longe usando o ‘nosso’ brinquedinho para se libertar da tirania!”

De repente, as trocas de mensagens eletrônicas se tornam mais importantes que seu conteúdo – afinal, por que mesmo os egípcios estão lutando?

Assim, despolitizou-se a revolução. O que está em evidência não é mais a tirania, a fome, a opressão, a luta de gente desesperada por condições humanas de vida e participação, mas o encantamento com as possibilidades do mundo virtual. Para todos os efeitos, o Facebook vai salvar o mundo.